O gatilho da hipocrisia
Não surpreendem as apreensões gigantescas de drogas que se repetem. Toda semana, as forças de segurança pública no país reprisam a novela que nem chama mais a atenção. Tantos quilos aqui, outras toneladas ali, um inglório mais do mesmo. Quanto mais se tenta terminar, mais o negócio cresce. Por quê? Há mercado. A sociedade parece gostar das drogas e desejá-las consigo. Sem um alto consumo, não haveria tanta venda e o mercado estaria em queda. E me desculpem, mas não é apenas desinformação sobre efeitos nocivos no organismo. Mil campanhas alertam sobre isto a todo instante. Há qualquer força invisível, ou um emaranhado de forças, a jogar na contramão do saudável, a convencer na ausência do conhecimento mais profundo e da educação realmente formadora. Nos tristes índices daqui, não lemos, mas nos chapamos pra caramba.
Não gostamos de violência, não queremos mais assaltos e este medo que nos ronda a cada passo. Torcemos o nariz para guerras e terroristas. Porém, matamos mais que ambos. Uma centena de jovens morre todo dia no Brasil. A grande maioria, negros e pobres. Muitos destes crimes têm relação com a venda e o consumo de drogas. Lícitas, como o álcool, ou ilícitas - a oferecer a grana fácil que suga a falta de perspectiva ou os excessos de moda nas baladas. Nossas mortes superam qualquer país sob os horrores de uma guerra. E os traficantes nada devem em crueldade aos fanáticos do Estado Islâmico. Porém, o consumo despreocupado incentiva este cenário. E se alia a uma gigantesca incompetência para barrá-lo.
Há quem defenda a legalização de drogas. Com estes, concordo apenas num ponto: reduzir a corrupção. Só. Mas esta nasce na falta de se importar com o outro, típico da nossa cultura de colonizar para extorquir, explorar sob escravidões, capitalizar a qualquer custo. Não resolve o todo. O gatilho da hipocrisia nos ronda. Quem quer lucrar com a morte alheia também não quer ser incomodado. Os jovens perdidos nas guerras do tráfico não terão carteira assinada, enquanto seus patrões, os de verdade, seguirão os mesmos, grandes, milionários, sonegadores, golpistas entrincheirados entre a elite que se abstém. Legalizar, onde nem o leite das crianças escapa? É de pensar. A violência não acabaria. Os viciados seguiriam induzidos a se viciarem mais, como sempre, para dar mais dinheiro, então ainda roubariam para sustentar seus vícios sem controle, matariam se preciso. E as cobranças seguiriam violentas. Novidade, talvez, seria ter que conviver com apelos inescrupulosos de consumo iguais ao álcool, no estímulo ao excesso, na cultura do desrespeito. Enfim. Ser hipócrita também é ser humano.
