Oscar Bessi

O homem e a abelha

O homem se irritou quando a abelha passou a zumbir perto dele. Passou uma, passou duas, passou três vezes. E ele deu um tapa na mesa ao lado do computador e xingou muito alguém por ter deixado aquela janela aberta, justo aquela, perto das flores. Aliás, porque ainda não arrancaram aquelas flores? Aí acontece isto, esses bichos entram e passam a incomodar.

- Mas é só uma abelha. - murmurou alguém.

- Então! Abelha pica. Já foi picado por abelha? Vou te dizer, meu jovem: quem é picado por abelha não esquece, só quer esmagá-las depois.

E o homem se sentiu bem. Era másculo e vingativo. Implacável. Mesmo que o corpo da abelha fosse mais de mil vezes menor que o seu, e alguém ironizasse que era fácil esmagar quem é bem menor, na verdade uma grande covardia, isto era irrelevante para o homem. Ele precisava ser frio e objetivo como todo sujeito que ama o progresso, o avanço, a moral e os bons costumes. A abelha seguiu na dela, indiferente ao aviso. Ela voava em círculos, encontrava vidros, retornava. Apenas tentava voltar para a rua.

- E se não nos enfia o ferrão, fica aí, ó: zumbindo em volta. Isso tira a concentração! - completou o homem.

E talvez naquele momento a abelha, se tivesse como protestar, reclamaria da sua voz alta, muitos decibéis acima da dela, ou da música que tocava no rádio do escritório, muito acima do seu volume ao zumbir. Aliás, de gosto muito duvidoso, ela também diria, acostumada ao canto dos pássaros, da brisa, das folhas e dos insetos. Mas o homem não queria saber se uma abelha tinha tímpanos, muito menos se eles eram milhares de vezes mais sensíveis que o seu. Ele era o incomodado e isto bastava. Irritado, tirou o sapato italiano. Não gostava de sujar seu sapato italiano. Mas aquela abelha não ficaria mais ali!

Ela pousou sobre um copo de refrigerante. Ele levou o braço na sua direção com violência. O sapato cortou o vento. Mas abelhas estão acostumadas. Há muitos, mas há muitos anos mesmo, não havia sapatos. Nem celular. Nem prateleira de supermercado ou roupas ou trânsito ou cotidiano. Mas já havia o homem. E ele não sabia o que era doce até que descobriu o mel, que as abelhas fabricavam e guarneciam. Começaram as mortes das abelhas. E as acusações sobre as suas picadas ferozes. Depois veio o mercado do mel, as colmeias artificiais e todo o resto.

O copo quebrou. O sapato manchou. A abelha voou, encontrou o caminho da liberdade e sumiu. Foi fazer mel. O homem foi ao banheiro. Fazer,  digamos, a única coisa que os homens sabem fazer, desde que o mundo é mundo.