coluna da edição impressa de sábado, 04/06/16
Um crime incomum. Mesmo na Porto Alegre violenta de hoje, que deixa aquela Chicago dos anos 40 com ares de paraíso pueril. A capital dos gaúchos, que na noite de quarta viu dois homens serem covarde e brutalmente assassinados em meros assaltos - cena de terror tão corriqueira que fez um grupo de estudantes colocar placas de alerta em áreas atacadas por ladrões -, não teve um dia de trégua para notícias de paz. Quinta pela manhã, cinco pessoas da mesma família foram encontradas mortas em sua casa, no número 335 da Rua José Marcelino Martins, bairro Jardim Itu-Sabará. As vítimas foram Dona Lourdes, uma senhora de 64 anos, seus dois filhos, ambos na faixa dos 30, e os etos, uma criança de apenas cinco anos e um bebê com 30 dias de vida. Vizinhos tranquilos, garantem todos. A Polícia, como de praxe, investiga as várias hipóteses para estes crimes.
Confesso que primeiro me chocou, neste caso, saber das crianças mortas. A gente sempre se sensibiliza um pouco acima do normal quando os nossos pequenos anjos são vítimas. Igual ao caso da monstra aquela, da creche em Canoas, cujas imagens ainda tenho dificuldade em rever. No caso do Jardim Itu, segundo alguns breves relatos policiais, o menino de cinco anos levou um tiro na cabeça. Bah. Na cabeça! Meu Deus! Quem consegue fazer isto com uma criança, uma execução sumária? E o bebê foi deixado pelo(s) assassino(s) sob o corpo da mãe, baleada nas costas. Talvez tenha morrido por asfixia, talvez a mãe tenha tentado protegê-lo num último e desesperado gesto. O tempo passado desde a execução do crime e o avançado estado de decomposição dos cadáveres dificultam as primeiras conclusões dos investigadores. Mas a perícia dirá o que aconteceu. Porque é preciso frisar: a despeito do descaso e da falta de investimentos nós temos, mesmo assim, tecnologia e profissionais de alto nível no Rio Grande do Sul atuando na perícia criminal. Bom para a sociedade. E a verdade virá à tona.
Seja lá quem for o autor, ou a autora, ou os autores desta monstruosidade, algo neste crime está posto: a crueldade com o próximo, a falta de humanidade e amor, a doença grave na mente de quem matou. Ódio passional? Pode ser. Outros crimes semelhantes em família tiveram esta motivação. Vingança? Acerto de contas? Há muitos fatos estranhos: a porta que não foi forçada, a inexistência de uma arma na casa que induza a um suicídio – o que, mesmo assim, não o descarta do cenário -, as drogas sob o cadáver do rapaz. Drogas, sempre elas. Foram colocadas ali para conclusões equivocadas? Ou são o centro de tudo? Enfim. Suposições. Várias hipóteses, muitas perguntas, respostas logo adiante. Um grande mistério. Ou só mais uma cena sangrenta e triste da nossa acuada Porto Alegre.
