Um amanhecer pesado, neste 10 de fevereiro de 2026. A prisão, em Cachoeirinha, de um policial militar suspeito no desaparecimento de três integrantes de uma mesma família, rompeu o silêncio e a expectativa popular com a força de uma notícia que dói duas vezes: pelo que se sugere, sobre o destino dessas pessoas tão queridas em sua comunidade, e pelo símbolo que carrega quando o suspeito, pelos fatos de hoje e sem estabelecer aqui um prejulgamento, é alguém pertencente a uma instituição que prima por servir e proteger. E que faz isto com propriedade, todos os dias, em todas as cidades gaúchas.
Tudo indica, aos nossos olhos de espectadores ansiosos pelo desfecho do mistério, é que a investigação apontará para um enredo já conhecido, triste e repetido — o de uma mulher que tentou se afastar, de tentativas de medidas protetivas que não chegaram a ser solicitadas e de mais um caso de violência que ultrapassa todos os limites. Mas a investigação ainda está em andamento e não se descarta uma reviravolta no caso. Particularmente, torço para que não seja nada disto. E que os três apareçam com vida.
Há, porém, um ponto de luz em meio à escuridão: a atuação firme da investigação policial, que soube manter o silêncio sem pressa por holofotes, a fim de não comprometer uma trabalho tão complexo e delicado. Mesmo com o clamor popular, demonstrado até com manifestações e cartazes colados nas paredes do mercadinho da família, os policiais mantiveram o foco e a serenidade. E só falaram na hora certa. E só o que podiam falar. O mesmo vale para o sempre transparente trabalho da Corregedoria da Brigada Militar, que não se apressa em condenar o suspeito. Isso não apaga nenhuma dor, mas reafirma que ninguém está acima ou aquém da Justiça.
O medo maior é que este seja apenas mais um capítulo da longa e cruel história dos feminicídios no Rio Grande do Sul e no Brasil. Casos recentes se acumulam como feridas abertas nesta mesma manhã: o homem preso em Rio Grande por incendiar a casa da ex-companheira por não aceitar o fim do relacionamento, e o feminicídio brutal em São Francisco de Paula. Histórias diferentes, motivações semelhantes. Em todas, a mesma raiz: a incapacidade de alguns homens de lidar com a autonomia feminina, transformando frustração em violência.
Os números já não chocam como deveriam, talvez por serem demais, por caírem numa perigosa banalização do crime. Mulheres continuam sendo mortas por quem dizia amá-las, ameaçadas mesmo após medidas protetivas, perseguidas mesmo depois do “basta”. Ou, pior, esperançosas de que nada disto seja possível, que tudo possa voltar ao normal, e permitindo retornos ou deixando de tomar as providências legais urgentes.
A engrenagem da violência gira rápido, enquanto a prevenção ainda caminha devagar. O Estado responde, investiga, prende, mas quase sempre depois que a tragédia já se consumou. Por isso, o Pacto Nacional de Prevenção ao Feminicídio, anunciado há poucos dias, não pode ser apenas mais um documento bem-intencionado. Ele precisa atravessar escolas, famílias, quartéis, igrejas, bares, festas, clubes e mesas de jantar. Precisa ensinar, desde cedo, que amor não é posse, que fim não é ofensa, que mulher não é propriedade. Enquanto essa mudança cultural não acontecer, seguiremos acordando com manhãs como a de hoje — dias que amanhecem sabendo, antes de nós, que algo muito errado ainda insiste em se repetir.
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