O mar das Canárias, geralmente azul-turquesa e convidativo, testemunhou nos últimos dias 6 e 7 de janeiro de 2026 uma cena que parece saída de um roteiro de ficção policial. Mas o roteiro é real. E o Atlântico virou manchete. Não por tempestades ou baleias à deriva, mas por um navio mercante, com bandeira camaronesa, interceptado perto das Canárias, carregando algo que nunca aparece nos cartões-postais: cerca de 10 toneladas de cocaína, escondidas em 300 fardos misturados a uma carga de sal.
A operação, internacional como o próprio tráfico, uniu forças de vários países — com destaque para o trabalho de inteligência compartilhado entre a Polícia Federal do Brasil e autoridades estrangeiras. A embarcação havia passado por portos brasileiros em dezembro de 2025, como quem está habituado a atravessar fronteiras invisíveis sem levantar suspeitas.
Dez toneladas. O número impressiona, mas talvez engane. Ele sugere um feito policial extraordinário — e de fato é —, porém também revela a dimensão do que não é e nunca foi apreendido no mundo. Se uma carga dessa magnitude estava a caminho, quantas outras passaram despercebidas?
O tráfico de drogas é, antes de tudo, um negócio globalizado, eficiente e adaptável, ainda que tão rico quanto sanguinário. Estimativas de organismos internacionais apontam que a economia das drogas ilícitas movimenta algo entre US$ 500 bilhões e US$ 600 bilhões por ano, valor comparável ao PIB de países médios do G20. Em linguagem mais direta: se o tráfico fosse um país, teria assento confortável nas mesas onde se decide o destino do mundo. E ele entende de logística, diversificação de rotas, lavagem de dinheiro, tecnologia e, sobretudo, de demanda. Que, onde há consumo, há mercado.
E, afinal, onde não há consumo de drogas? Alguém saberia me responder?
Mas todo PIB tem um custo social — e, nesse caso, a conta vem manchada de sangue. No mundo, calcula-se que centenas de milhares de pessoas morram todos os anos em decorrência direta ou indireta das drogas. Parte dessas mortes vem do uso em si: overdoses, complicações de saúde, doenças associadas. Outra parte, igualmente brutal, nasce da violência do tráfico: disputas territoriais, execuções, corrupção, violência armada. Em países produtores, de trânsito ou de consumo (categorias cada vez mais sobrepostas) o impacto é transversal.
No Brasil, o preço também é alto. Além das vidas perdidas nas periferias e nas rotas do crime, há o peso silencioso sobre o sistema público de saúde. Estimativas indicam que o SUS gasta milhões de reais por ano com atendimentos relacionados ao uso problemático de drogas, incluindo internações, tratamentos de longo prazo e cuidados com doenças associadas ou danos diretos e indiretos gerados pelo consumo, além dos males decorrentes da violência do tráfico em si. É um gasto necessário, humano, mas que revela um paradoxo: enquanto o tráfico acumula lucros astronômicos, o Estado arca com os prejuízos. Financeiros e sociais.
A apreensão recorde na Espanha mostra que a cooperação internacional funciona. Inteligência compartilhada salva tempo, recursos e, potencialmente, vidas. Mas também escancara um dilema maior: reprimir é indispensável, porém insuficiente. Cortar uma rota não elimina o mapa. Desmontar um navio não afunda o mercado.
Mudar esse panorama é possível? A resposta honesta é: talvez, mas não apenas com sirenes e algemas. Passa por políticas públicas baseadas em evidências, prevenção ao uso através de educação de base, tratamento digno para dependentes, redução de danos e combate firme à lavagem de dinheiro, o oxigênio financeiro do crime. Passa também por enfrentar desigualdades que tornam o tráfico, para muitos, a única promessa concreta de renda e pertencimento.
Enquanto isso não acontece, o mundo segue contabilizando fardos. De sal, de pó, de cifras e de mortes. A cada grande apreensão, comemoramos. Com razão. Mas talvez seja preciso, junto com o aplauso, fazer a pergunta incômoda: que sociedade é esta nossa que produz, sem qualquer pudor ou escrúpulo, um negócio tão rentável quanto devastador? E, mais difícil ainda, o que estamos mesmos dispostos a mudar para que dez toneladas apreendidas deixem de ser apenas um número espetacular e passem, enfim, a ser um sinal de virada?
