Quem diria. Nosso país, que nós mesmos consideraríamos quase imbatível se houvesse medalha de ouro para provas de impunidade, dá exemplos de seriedade que deixam não só o mundo, mas os próprios brasileiros pasmos. E orgulhosos.
Quem achou que aqui podia fazer e acontecer que não dava nada, se enganou. Quem chegou a cogitar que a lei brasileira só serve para enfeite e que a Polícia não age, perdeu o pódio. Se o desempenho esportivo é, como se esperava, não muito brilhante - apesar das belas surpresas -, o Brasil dá ao mundo uma inesperada aula de seriedade.
Primeiro, não teve arrego para o boxeador marroquinho, que, talvez iludido por alguma propaganda enganosa (e que engana muita gente nossa há muito tempo também, diga-se de passagem) de que aqui mulher é coisa, pedaço de carne, tentou estuprar duas camareiras. Duas "Maria-ninguém", que mal há em se passar, né? Foi preso na hora. Ele chamou as mulheres ao seu quarto com a desculpa de pedir informações e, do nada, já caiu de mão no corpo das duas, certo de que elas topariam uma farra sexual com ele e os outros atletas que estavam no recinto. Mas se deu mal, elas não eram nada disso. Elas são gente. Brasileiras de dignidade. Exigem respeito. E a polícia não deixou para depois, meteu as algemas no abusador estrangeiro com regalias de atleta convidado e o levou pro xilindró.
Depois, a polícia brasileira deu de ombros à arrogância do Presidente do Comitê Olímpico Irlandês, integrante do COI, e prendeu o distinto senhor também. O cartola estava vendendo ingressos ilegais para os jogos. Certamente achou que, ah, nesse país de produtos pirateados vendidos nas calçadas, de uma nova corrupção pública noticiada a cada dia, quem vai dar bola? Aqui se pode tudo. Outro que se enganou! E assim que as autoridades policiais souberam, ninguém ficou com melindre ou tentou jeitinho, foram lá e acabaram com a festa, podia ser quem fosse, com que prerrogativas tivesse. Polícia brasileira é assim. Não sei em quantos outros países isto aconteceria.
E agora essa dos nadadores americanos. Fizeram farra, bagunça e depois vieram com uma lorota mal contada de assalto, falsa blitz policial e etc. Acharam que seria assim, vamos lá, fazer o que der na telha, quebrar tudo pelo caminho, depois a gente conta qualquer história idiota para esses subdesenvolvidos, esfrega uns dólares na cara deles e tudo ok, my brother. Negativo! A Polícia foi atrás, ouviu os carinhas comuns do povão que estava trabalhando na madrugada, viu filmagens, a juíza também não aceitou a enrolação e ninguém ficou parado, nem quieto. E a polícia buscou dois deles dentro do avião, de bermudinha, na maior pose de piá mimado, achando que as férias na terra da bagunça haviam acabado, então era só ir embora e fim de papo. Enganaram-se. Lá estavam ambos, há pouco, dando depoimento como qualquer outro acusado de crimes numa delegacia carioca.
Tá, a guerra do tráfico continua, o Brasil segue bagunçado e mal conduzido, o povo chupa dedo e só assiste pela TV a festa mais rica, que é para poucos. Mas os caras lá fora estão com os olhos arregalados. Estavam loucos para noticiar fiascos e terrorismo. São obrigados a falar de uma belíssima abertura, que deu nos dedos dos gestores do mundo ao falar de vida sustentável, e de seriedade no cumprimento de leis. De polícia que vai lá e atua sem olhar a quem. Show, né? Esta é a mais surpreendente medalha de ouro que o Brasil nos trouxe nestes dias olímpicos.
