Oscar Bessi

O mundo vê o lado muito sério do Brasil

Quem diria. Nosso país, que nós mesmos consideraríamos quase imbatível se houvesse medalha de ouro para provas de impunidade, dá exemplos de seriedade que deixam não só o mundo, mas os próprios brasileiros pasmos. E orgulhosos.

Quem achou que aqui podia fazer e acontecer que não dava nada, se enganou. Quem chegou a cogitar que a lei brasileira só serve para enfeite e que a Polícia não age, perdeu o pódio. Se o desempenho esportivo é, como se esperava, não muito brilhante - apesar das belas surpresas -, o Brasil dá ao mundo uma inesperada aula de seriedade.

Primeiro, não teve arrego para o boxeador marroquinho, que, talvez iludido por alguma propaganda enganosa (e que engana muita gente nossa há muito tempo também, diga-se de passagem) de que aqui mulher é coisa, pedaço de carne, tentou estuprar duas camareiras. Duas "Maria-ninguém", que mal há em se passar, né? Foi preso na hora. Ele chamou as mulheres ao seu quarto com a desculpa de pedir informações e, do nada, já caiu de mão no corpo das duas, certo de que elas topariam uma farra sexual com ele e os outros atletas que estavam no recinto. Mas se deu mal, elas não eram nada disso. Elas são gente. Brasileiras de dignidade. Exigem respeito. E a polícia não deixou para depois, meteu as algemas no abusador estrangeiro com regalias de atleta convidado e o levou pro xilindró.

Depois, a polícia brasileira deu de ombros à arrogância do Presidente do Comitê Olímpico Irlandês, integrante do COI, e prendeu o distinto senhor também. O cartola estava vendendo ingressos ilegais para os jogos. Certamente achou que, ah, nesse país de produtos pirateados vendidos nas calçadas, de uma nova corrupção pública noticiada a cada dia, quem vai dar bola? Aqui se pode tudo. Outro que se enganou! E assim que as autoridades policiais souberam, ninguém ficou com melindre ou tentou jeitinho, foram lá e acabaram com a festa, podia ser quem fosse, com que prerrogativas tivesse. Polícia brasileira é assim. Não sei em quantos outros países isto aconteceria.

E agora essa dos nadadores americanos. Fizeram farra, bagunça e depois vieram com uma lorota mal contada de assalto, falsa blitz policial e etc. Acharam que seria assim, vamos lá, fazer o que der na telha, quebrar tudo pelo caminho, depois a gente conta qualquer história idiota para esses subdesenvolvidos, esfrega uns dólares na cara deles e tudo ok, my brother. Negativo! A Polícia foi atrás, ouviu os carinhas comuns do povão que estava trabalhando na madrugada, viu filmagens, a juíza também não aceitou a enrolação e ninguém ficou parado, nem quieto. E a polícia buscou dois deles dentro do avião, de bermudinha, na maior pose de piá mimado, achando que as férias na terra da bagunça haviam acabado, então era só ir embora e fim de papo. Enganaram-se. Lá estavam ambos, há pouco, dando depoimento como qualquer outro acusado de crimes numa delegacia carioca.

Tá, a guerra do tráfico continua, o Brasil segue bagunçado e mal conduzido, o povo chupa dedo e só assiste pela TV a festa mais rica, que é para poucos. Mas os caras lá fora estão com os olhos arregalados. Estavam loucos para noticiar fiascos e terrorismo. São obrigados a falar de uma belíssima abertura, que deu nos dedos dos gestores do mundo ao falar de vida sustentável, e de seriedade no cumprimento de leis. De polícia que vai lá e atua sem olhar a quem. Show, né? Esta é a mais surpreendente medalha de ouro que o Brasil nos trouxe nestes dias olímpicos.