Oscar Bessi

O pai e o filho

coluna de 23/11/14

Jader Edtt é bombeiro. Um homem que tem por costume e ofício salvar vidas. A maioria, aliás, ele nem conhece. O que o tranforma em alguém capaz de traduzir o conceito maior do amor, aquele que oferece a si próprio em sacrifício para o melhor de quem se ama. E Jader é destes seres humanos especiais e raros que são capazes de amar sem questionar se o outro merece, ou se irá retribuir. E os seus colegas sabem disto. Pude perceber nos comentários ao texto que o Paulo Tavares, aqui do Correio do Povo, publicou nas redes sociais, encantado com a foto que flagra o instante onde Jader recebe, do seu filho ainda pequeno, as divisas de 2º Sargento. Era a formatura do Curso Técnico de Segurança Pública, no dia do aniversário da Brigada Militar. Paulo, com seu olhar sensível, chama a atenção para o orgulho estampado na expressão do menino. A seriedade. A beleza na compreensão da importância daquele momento para seu pai e herói - um homem acostumado ao perigo nas batalhas diárias da vida, mas capaz, acima de tudo, de ensinar valores humanos como amor e respeito ao seu filho.

Eu li Paulo e me emocionei. Mas não tive tempo de comentar sobre, nem de parabenizar o Sargento Jader, ou até mesmo os tantos outros amigos que estavam naquela formatura. A situação de saúde do meu pai se agravou e, na noite de quarta, ele partiu. Encerrou um longo tempo de dedicação e renúncia da família aos seus cuidados. Nestas horas, uma sensação incômoda de impotência pesa sobre os ombros e empresta qualquer sabor amargo às palavras. O triunfo é sempre do destino inevitável. Como a memória e os exemplos serão eternos para quem se importa. Eu fiquei com as histórias, os valores, a postura diante do que há de mais humano do meu pai, como sei que o filho de Jader guardará por toda a sua vida as lições do homem em cujo braço colocou insígnias, e em cuja alma imprimiu escolhas.

Haverá o dia em que o conceito de paternidade ultrapassará o de ser apenas uma consequência física, desejada ou não, após o ato sexual. Haverá o dia em que o compromisso de conduzir, pela mão dos exemplos, aqueles por quem somos responsáveis, será tão natural que nem precisará ser dito. Que campanhas pedindo o óbvio amor e o respeito ao próximo não sejam tão urgentes e necessárias. Eu apenas torço para que este dia, despido de violências e inundado de afetos, ainda seja vivido pelo filho de Jader. Pelos meus, pelos nossos filhos. E aqui. Não apenas lá onde meu pai, a esta hora, já deve estar mateando com Deus.