O poder da intolerância
Primos meus, em São Leopoldo, moram perto de uma delegacia e de um bar. O desrespeito e a desordem deste bar são de enlouquecer. Procuram ajudas legais, nada se resolve. Não dormem mais. Impotentes, cogitam abandonar uma vida inteira ali. Uma amiga escritora, mãe gravemente enferma, não consegue lhe proporcionar o repouso médico recomendado. Ao lado, um clube sem isolamento acústico promove eventos em som alto quase todos os dias e noites. E ela ainda luta contra a ganância do seu plano de saúde. Um amigo PM e sua esposa enfermeira não suportam mais trabalhar à noite, salvando vidas, sem poder descansar de dia pelo mesmo motivo. "Conflitos urbanos". Ou a ausência de consideração ao próximo. É a intolerância e seus matizes.
Ao ler, no Correio do Povo, sobre o aposentado de Esteio, pensei nos níveis de irritação que o levaram à loucura. Nada justifica matar. Nem agredir. Como não justifica debochar e ignorar quem pede para que se baixe um som que incomoda. Erros em série. Intolerâncias de um mundo louco. Cada um por si, em si. Os caminhos legais são débeis, abandonam o povo e seus conflitos. São vistos como de mínima gravidade. Aos doentes, recém-nascidos e idosos, meus caros protegidos em suas ilhas de conforto, é grave sim. Insuportável. Esfacela a qualidade de vida. Coloquem-se no lugar deles, tentem. O resultado é um resolver por si e da pior forma possível: com ódio, vírus que ocupa rápido todo espaço deixado sem amor. Respeitar é amar o próximo. Priorizar seu umbigo é o nascer da intolerância e da alienação. E são também alienados e intolerantes os que dão de ombros aos dramas do seu povo.
O autor dos disparos e da morte deve pagar pelo que fez. Nada justifica. Mas caçá-lo agora não passa de preocupação tardia com o que poderia ser evitado antes. Até na educação (por isto defendo: pré-natal, além de clínico, devia ser educacional). Como a educação está lá no fim da fila das prioridades - nem falo só das esmolas aos professores estaduais, vou além -, vem esse incentivo ao desrespeito, o estímulo à exclusão rotulada e imposta. À intolerância. Que também matou Francisco, herói de fato, morador de rua com nome de Papa na porta da Catedral da Sé. Mártir sem esperança que foi a única mão estendida, em meio ao caos, a se importar com quem nem conhecia. Mídias reacionárias ainda tentam encontrar crimes no morador de rua, disparos policiais em Francisco, minimizar ou desfocar o que emocionou o mundo. Eles não suportam a ideia de polícia ao lado do povo e precisam jogar um contra o outro. Amam resumir este povo sob preconceitos, pois seu poder real ameaça os golpistas que tanto defendem. A intolerância tem poder. Infelizmente. E confesso que tenho medo dela.
