Oscar Bessi

O presente de Izabél

 

Estou ministrando uma oficina de crônicas através do SESC/RS em Montenegro/RS. Quatro encontros cheios de alegria, descontração - como o “trabalho de campo” realizado pelo grupo dos sátiros, dos eróticos e dos sérios - e instantes de emoção intensa. Um, particularmente, preciso contar para a minha meia dúzia de leitores. Com um tema de casa sobre “clichê”, os alunos abriram a terceira aula com o clássico clichê estudantil: dar maçã ao professor. Pintou maçã grande, pequena, maçã em forma de almofada, maçã em poema, bombom de maçã e até uma melancia. Risos. Aí, na saída para o intervalo, uma moça experiente, Dona Hedi, me trouxe o presente que me fez chorar. Numa pasta plástica, com um bilhete carinhoso, a minha professora Maria Izabél Funck Nonemacher enviou as minhas primeiras redações lá dos tempos do colégio São João. Minhas primeiras “crônicas”.

Eu chorei, depois, sozinho na sala. Chorei, porque ando tomando remédios contra depressão e gestos de carinho me deixam ainda mais sensíveis do que costumeiramente já sou. Não me envergonho de ser tão emotivo. E aqueles papéis amarelados, de 1987, me abraçaram com uma força que remédio algum consegue ter. Folhas do antigo caderno de classe de Izabél. Numa delas, ela carinhosamente parabeniza o menino pelo olhar crítico e anuncia que ele já achou seu estilo de escrever. Ela sempre tinha esses recados motivadores, não apenas lia e corrigia os trabalhos.

Passou um filme pela minha cabeça. Meu primeiro prêmio literário, no Teatro São Pedro lotado, as escolas por onde andei, os eventos, os estados que visitei graças à literatura, meu primeiro contrato editorial. O ingresso na Nuvem dos Livros, com meus juvenis viajando pela América Latina e Europa, o reconhecimento como obra importante pela Biblioteca Monteiro Lobato, de São Paulo. As crônicas nos jornais, minhas primeira coluna no Correio do Povo e a amizade com tantos novos leitores. Tudo começou ali, naquelas redações. Tudo começou com ela, a Professora Izabél. Com a sua motivação. E, naquele sábado, ela me proporcionou descobrir, ao ler os velhos textos, que o Oscar de hoje - adulto, marcado de feridas e complicado como qualquer outro - ainda pensa igual àquele menino sonhador de 16 anos. Foi o melhor de tudo. Que professora! Quase trinta anos depois, ela consegue me motivar outra vez.