Oscar Bessi

O problema dos contêineres

Legenda: Presídio feito de conteineres no bairro Novo Horizonte, região metropolitana de Vitória, motiva pedido de intervenção federal no Espírito SantoEm 2009, presídio feito de contêineres no bairro Novo Horizonte, região metropolitana de Vitória/ES, motivou pedido de intervenção federal no Espírito Santo - Foto de Luciana Lima/Agência Brasil

 

É fato que a questão da falta de vagas no sistema prisional gaúcho é prioridade. E que o governo do RS quer resolver a questão (leia aqui). Afinal, já temos presos em viaturas, guarnições policiais paradas sem patrulhar as cidades já tão carentes de efetivo, e ainda por cima policiais tão presos quanto os criminosos que acabaram de capturar em flagrante, pois não podem sequer ir para as suas casas, para as suas famílias e o devido descanso, uma vez que não há onde deixar os detidos.


Certo, isto não pode continuar.


Mas, sinceramente, vamos torcer para que a teoria dos contêineres não siga adiante. Pode ser barato. Pode parecer prático. Mas é humano?


Veja bem: não estou aqui fazendo defesa de bandido, até porque sigo acreditando que todo sujeito que cometer crimes precisa pagar pelo que fez. Mas os bandidos são eles. Os que fazem mal, que desrespeitam a vida e a condição humana, são os bandidos. O Estado não pode agir no mesmo tom. E é claro, nosso país está precisando disto, de que se pague pelos crimes cometidos de forma séria e inadiável, mas nosso país está precisando que TODOS paguem pelos crimes que cometem. E ainda se execra publicamente muito ladrão de galinha enquanto as prisões dos senhores do Olimpo, enfiados até o pescoço nesse emaranhado de desvios, delações, fiascos, corrupções e etc., eles que são os grandes responsáveis por tudo de ruim que estamos passando, do desemprego às crises públicas e privadas, esses ainda têm prisões que são verdadeiros hotéis 5 estrelas.


Ou alguém da lava-jato vai para um contêiner desses?


Quem lembra, em 2009, o escândalo que foi esta medida paliativa no Espírito Santo? Até pedido de intervenção federal houve. O problema deste tipo de prisão é que se torna um ambiente totalmente insalubre. Pior que jaula ou gaiola. Com o calor, vira um forno ali dentro. Comida estraga. Odor péssimo. Sem condições nenhuma. E vem aí o auge do verão.


Vamos pensar na função primeira de uma prisão: fazer com que o indivíduo pague pelo crime que cometeu, ok, mas se ressocialize, que retorne ao convívio social sem vontade de incorrer outra vez no mesmo erro. Tá, é utopia, por aqui. Mas contêineres serão o jardim do ódio.  Ninguém sairá melhor de um lugar desses. E anotem: logo todos os contêineres estarão lotados, superlotados, serão fornalhas de seres humanos.


Seres humanos transformados em feras.


Tá bem: melhor que esses caras pensem antes de cometer crimes e evitem estar lá, pagando seus pecados.


Mas cadê a educação, que previne? Cadê a cultura de obediência às regras que precisamos estimular? Cadê, aliás, os bons exemplos que arrastam? Ih, aí complicou o papo de vez.


Olha, pense assim: poderá ser um familiar teu, preso por um deslize qualquer, a ficar trancafiado num desses contêineres. É. Um filho, quem sabe. Teu velho pai. Coloque-se no lugar dessas pessoas, das famílias dessas pessoas. Como a gente quer muito que os criminosos se coloquem no lugar das vítimas cujas famílias eles destroem todos os dias.


Ódio não anula ódio. Só multiplica.


Tomara que se ache uma outra saída. Ou a fábrica de bandidos vai aumentar e a ferocidade da violência vai ficar ainda pior.