Oscar Bessi

O que há por trás do “terrorismo brasileiro”?

Diferente de grupos terroristas internacionais, tradicionalmente ligados a narrativas religiosas ou separatistas, as células aqui identificadas parecem fruto de uma mistura de ideias soltas, frustrações sociais e a sensação de poder imediato que a internet oferece aos que sabem usar códigos e símbolos para se reconhecerem.

Este início de fevereiro trouxe, para as duas maiores metrópoles brasileiras, notícias que, há alguns anos, pareceriam impensáveis. A Polícia Civil de São Paulo prendeu 12 jovens (alguns sequer passaram dos 20 anos) envolvidos em um plano para lançar bombas caseiras e coquetéis molotov na Avenida Paulista, manifestando-se mais por pretenderem gerar tumulto e pânico do que por causa alguma coerente. A operação de inteligência investigou semanas de conversas e vídeos compartilhados em redes sociais e bloqueou a ação antes que sequer ela começasse.

Ao mesmo tempo, no centro do Rio de Janeiro, agentes da Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática desarticularam um grupo autodenominado “Geração Z”, com cerca de trezentos integrantes, que se preparava para ataques com artefatos incendiários em frente à Assembleia Legislativa (Alerj). Bombas caseiras, instruções de fabricação e incentivo à violência. Sinais de um plano que buscava causar pânico e romper a ordem social.

Esses eventos, frustrados antes de eclodirem, chamam atenção não apenas por sua ocorrência no coração de grandes cidades, mas por quem está por trás deles: jovens, muitos nascidos no século XXI, que encontraram no anonimato das redes um palco para ideias de destruição. Diferente de grupos terroristas internacionais, tradicionalmente ligados a narrativas religiosas ou separatistas, as células aqui identificadas parecem fruto de uma mistura de ideias soltas, frustrações sociais e a sensação de poder imediato que a internet oferece aos que sabem usar códigos e símbolos para se reconhecerem.

Longe de ser um problema “importado”, novos mecanismos de radicalização online têm se mostrado eficazes em difundir conteúdo violento e em encorajar indivíduos isolados a acreditar que podem fazer “algo grande”. Em outros países, esse fenômeno também é conhecido: na França contemporânea, por exemplo, expertises sobre os atentados de 2015 constatam que a radicalização de alguns atacantes passou por espaços não oficiais da internet, longe de hierarquias tradicionais de grupos terroristas, tornando a ameaça mais difusa e imprevisível. Portanto, mais perigosa e difícil de combater.

É claro que falar de terror no Brasil — um país já marcado por violência urbana, milícias, facções criminosas e altos índices de homicídios — não é simples. A frustração de um ataque a bomba em território nacional chama atenção justamente porque o país convive há décadas com outro tipo de violência, muitas vezes estrutural e de resultados mais silenciosos, no cotidiano das favelas controladas por traficantes e milicianos e nos confrontos entre polícia e crime organizado, que já deixaram dezenas de mortos. Afora os milhares de ataques diários que o povo brasileiro sofre em seu cotidiano, em suas casas, caminhando na rua, em eventos ou nas estradas, e que, se vistos apenas sob números absolutos, apavoram qualquer um.

Comparado aos grandes atentados do cenário internacional, os planos frustrados aqui foram geograficamente modestos. Não chegaram a ferir ninguém e foram parados a tempo. Ainda assim, trazem à reflexão um ponto crucial: o terror, em sua forma mais primária, não é apenas explosões e mortes em larga escala como em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Tampouco precisa ser um ataque coordenado sofisticado como os atentados em Paris em 2015, ou os recentes ataques que continuam a devastar comunidades em regiões de conflitos, como na África e no Paquistão.

Terrorismo, e todas as formas de violência organizada, são sombras que se alimentam de instabilidade, exclusão, desesperança e falhas de comunicação social. Quando vemos jovens em São Paulo e no Rio planejando violência nas redes, somos chamados não apenas a celebrar a eficiência da inteligência policial, mas a perguntar: o que está levando essa juventude a se sentir mais ou menos invisível ou radicalizada do que nunca, a ponto de formar grupos tão violentos e angariar tantos adeptos?

O Brasil já tem desafios demais em segurança pública e violência estrutural para se dar ao luxo de ignorar novas formas de ameaça, ainda que frustradas, e a dialética entre medo e normalidade. O terror pode estar evitando as manchetes de amanhã se não enfrentarmos as causas profundas que empurram indivíduos à ideologia da violência. Seja em contextos internacionais, seja aqui, em nossas próprias cidades. Ou até mesmo dentro de nossas casas, disfarçados sob jogos virtuais.

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