Noite dessas, eu e alguns amigos desocupados travamos um debate sobre o que a gente perde com mais facilidade nesta vida. É que estávamos sem fazer nada e podíamos perder tempo discutindo inutilidades. São as melhores discussões, tranquilas e sem ânimos acirrados.
A palavra "chave" (não a palavra-chave) veio de imediato. Todos concordaram, "é verdade, é verdade!". Quem nunca perdeu as chaves? Ou, pelo menos, esqueceu nalgum lugar? O Afrânio admitiu ter, na sua casa, cinco cópias das suas chaves. Porque é muita chave para um molho só e perdê-lo é um desastre, há que se ter o reserva pronto à mão. É chave da porta de casa, do portão, portinha, portinhola, escritório, carro e o escambau. "Mesmo assim", ele sorriu, desapontado, "nos melhores dias, a gente encontra três. Os outros, puf!, se dissolvem no ar."
Guarda-chuva!, ponderou o Léo. Nada se perde mais que guarda-chuva. Foi a minha vez de confessar que, após perder uma soma absurda de guarda-chuvas e derivados - que mal mereciam o substantivo, mas comprei na rua, na urgência, e nem podia reclamar -, considerei muito mais saudável, pelo menos para o meu bolso, me molhar.
Outro, na roda ponderou que carteira, ou documentos, competem de igual para igual com chaves e guarda-chuvas. Uns discordaram e usaram o termo "bocaberta". Alguém resolveu me cutucar e disse que eu era o único caso de sujeito que perde o celular todos os dias, quando a humanidade inteira se gruda nesses aparelhos de tal forma que o telefone (sei, uma definição pequena demais para tudo o que ele faz) vira piercing, adesivo, ou quase uma lente de contato de tão grudado no olho que fica o tempo todo. Eu não perco, me defendi. Eu simplesmente o refuto. É um telefone - foi para isto que comprei, então joguinho e whatsapp são só acessórios - é nada além de uma opção móvel, um conforto. E ainda não há legislação que torne obrigatório o seu uso, nem pesquisa científica que o declare membro do corpo humano. Mudaram de assunto.
Decidi nem opinar sobre o que mais me incomodava. Talvez estejamos perdendo, e com facilidade absurda, o respeito. A vergonha na cara. A consideração pelo outro e a as noções mais básicas de civilidade. Parece que não sabemos mais falar de política sem nos agredirmos. Enquanto eles, lá, se locupletam e formam suas conforme a conveniência e o negócio, não por paixões e ódios. Apenas nos usam como instrumento de manobra para seus objetivos. Nós? Tolos. Nada além. Porque é tolo o que deixar de amar quem sempre lhe quis bem, de verdade, por panfletos de ocasião.
Deixamos cair o amor, a sensibilidade e o lado bom de ser racional nalgum trecho da estrada, e nem queremos voltar para resgatá-los. Aí as perdas são bem maiores. Mas não falei nada, porque seria outra discussão de acirrar ânimos. Optei pelo espetáculo das estrelas, este sim possível entre amigos. Pelo enquanto ainda nos restar quaisquer noites de doces inutilidades.
