A escola é o melhor lugar para enquetes verdadeiras. Porque só se recebe respostas sinceras. Esses institutos de pesquisa deveriam focar só as crianças nas escolas para saber como anda o pensamento do povo sobre a economia do país, o treinador da seleção ou até mesmo o final da novela. Elas respondem tudo sem melindres ou frases decoradas. Quer dizer, depende do ano dos entrevistados. Quanto maiores, mais receosos ficam e menos espontâneos. Que a compreensão do mundo traz consigo, infelizmente, uma necessidade de parecer adequado. Ou necessariamente rebelde. Ou... Enfim, traz as poses. E as máscaras.
A professora chegou propondo um trabalhinho diferente, naquela manhã. Pediu que todos pegassem folha de desenho e perguntou: o que não pode faltar em casa? Na nossa casa, professora? Isso, na casa de cada um de vocês, o que não pode faltar? Pensem e me respondam.
- Luz!
- Mas se faltar luz, o que acontece?
- Não liga a tevê. Nem o computador.
- E não é bom desligar tevê e computador e conversar de vez em quando?
O menino pensou um pouco reconheceu que sim, quer dizer, era bom, mas nem tanto. A profe pediu que pensassem nas coisas que realmente fazem falta numa casa.
- Chocolate!
- Mas se não tiver chocolate, pode ter fruta, ou pão, não é?
- Hum. É verdade, profe. Mas eu gosto muito de chocolate!
- Ah, tá. O que mais?
- Amor!
Opa. Silêncio.
- Na nossa casa não pode faltar amor. - completou uma menina, muito meiga.
- Óinn, que gudi-gudi! - respondeu a professora, emocionada.
A partir daí as respostas passaram a ter, todas, um tom fofo-poético, cada qual querendo ganhar um “óinnn” da profe melhor por dar uma resposta mais gudi-gudi que a do outro.
- Respeito!
- Amizade!
- Sinceridade!
- Alegria!
- Paz!
- Amor!
- Amor já foi, ô!
- Óinn! Óinn! Óinn! - repetia a professora, olhares de ternura. Até que o Joãozinho se atravessou, com seu jeito prático de futuro gestor.
- Papel higiênico!
Silêncio. Mas desta vez não veio nenhum “óinn”.
