Oscar Bessi

O Rio Grande rebaixado

Não estou falando de futebol. Já explico. Embora até seja bom tocar no assunto e pedir, encarecidamente, aos colorados que tenham muita calma neste domingo. Mesmo que o time caia já para a série B, uma rodada antes do encerramento do campeonato, pois é bem possível que isto aconteça. E logo em casa, no Gigante da Beira-rio, palco de tantas glórias e emoções. Pois que seja também palco de honra. Que os desacertos na condução do clube não maculem a paixão que a torcida tem pelo seu time, esta é bem maior e é de uma vida inteira. Não é dia de quebrar tudo e brigar com seus iguais, por maior que seja a raiva ou a frustração. O sangue colorado é vermelho de raça e coragem para voltar a vencer, não de violência. Haverá crianças no estádio. Elas não podem pagar pela insanidade de adultos descontrolados. Com o Inter na série A ou na série B, a vida continua, nossas contas do final do mês e problemas serão os mesmos.

O Rio Grande como um todo está sendo rebaixado. Mal administrado há tanto tempo, cai e abre uma cratera faminta que engole justo quem luta diariamente para que ela não exista. Não é lógico ver nesta maré um estado que concede mais de nove bilhões de reais em incentivos fiscais, que não consegue controlar a sonegação instituída como cultura – até pelo descrédito no próprio estado e a sua velha mania de aumentar impostos para resolver o que não sabe. Um estado que tem Polo Petroquímico, Refinaria da Petrobrás, Superporto, produção agropecuária e industrial pujante, que aumenta ICMS mais do que quase todos, vem com essa de que não tem dinheiro? E para pagar justamente os que são, desde sempre, mal remunerados? Mergulhado na violência, aa alimenta, ao promover o desânimo e a debandada de profissionais da Educação e da Segurança ao ameaçar direitos, impor desaforos clássicos como depositar menos que um salário mínimo no final do mês. São estes que se locupletam na coisa pública, que ganham carros, gasolina e mordomias várias na faina diária? Ah: bom é ver “sujeitos de esquerda” deitados nesse imoral berço esplêndido e sem qualquer dor na consciência.

Todos nós sabemos quem quebra o nosso estado. Sabemos muito bem que jogadas ardilosas depredaram a nossa riqueza ao longo do tempo. E sabemos quais são os castelos que seguem desprezando este povo que os paga – povo que é seu patrão, mas virou escravo sob a batuta da empáfia e da prepotência. Os privilégios verdadeiros, que provocam rombos, não são combatidos. Os desvios históricos não são recuperados. Mas, na lógica perversa, é por culpa de policiais e professores que o Rio Grande está rebaixado a um estado miserável para se viver. Seria como dizer que, se o Inter cair, foi por culpa da torcida que ganha pouco, mas paga ingresso e compra camiseta. Bah. Vamos combinar que não, né?