Coluna de edição impressa de sábado, 13/02/17.Foto: Vinícius Moraes / AFP / CPAs relações nascidas na falsidade não se sustentam. Isto vale para casais humanos, coligações partidárias – vide nossa histórica recente -, escalação do time principal e por aí vai. A verdade vai aparecer, a separação vai ocorrer, é inevitável, e há grandes chances de que seja traumática. Pior: atinja quem nada tem a ver com o abacaxi. Porque a mentira sempre lesa. E há um dueto histórico no teatro público brasileiro que vem cambaleando há décadas, ou até séculos, equilibradas por um fio entre mentiras escancaradas e debilidades conhecidas. É a relação do Sol com a peneira. Esses dois não se dão. Não se aceitam, não se completam, não têm nada a ver um com o outro. Mas gerações de gênios insistem em manter essa peneira como a sócia perfeita do Sol, dizendo ao povo “vejam, está tudo resolvido”.
O que ocorre no Espírito Santo é bem simples. A peneira se retirou do cenário e o Sol deu de ombros, afinal, pra ele segue tudo igual, azar de quem se queima. A Polícia Militar parou. E a maior discussão nem é sobre legalidade do movimento, o debate que precisa ser feito, urgente, e transformado em ações é sobre a espécie de sociedade que compõe nosso país. Quando cidadãos pacatos, sem antecedentes criminais, ficam sabendo que não há polícia ostensiva nas ruas e saem a roubar imediatamente, sem nenhum freio moral, quer dizer que estamos, de fato, no fundo do poço. Que nossa educação é zero. Que nossa civilidade é nula. Que nossa democracia é falsa e nossa liberdade é um engodo. E, pior, tudo o que foi feito até hoje e alardeado por governos de lá e de cá, foi mentira. Peneira que nunca tapou o Sol. Não houve valorização do indivíduo, não aconteceu construção alguma de cidadania, a educação só fez regredir e a violência está impregnada na alma e na pele de cada brasileiro, criminoso ou não. O caos não é a falta de polícia. O caos é saber que sem polícia nos tornamos feras abomináveis e inescrupulosas num estalar de dedos.
Agora, fica mais do que claro que, sem Polícia Militar, tudo foge ao controle. Então passou da hora de qualificar e valorizar essas polícias, em vez de ficar perdido entre discursos nascidos de recalques por desvios de conduta próprios. Fácil vociferar protegido pela telinha do computador bebendo achocolatado. Quero ver ir lá, resolver o problema e arregaçar as mangas onde a lama tomou conta. Há lugares onde a PM é o único Estado presente. Ninguém mais vai. Até se entende que o Ministério Público daquele estado dê ordens para que se estabeleça o policiamento. Mas que dê ordens, também, para que o governo devolva a dignidade àqueles policiais. E dê ordens, acima de tudo, para que a Educação em seu sentido mais amplo seja prioridade neste país. Pra ontem!
