O valor da vida

O valor da vida

Oscar Bessi

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Um homem entra em um açougue sem saber que dá seus últimos passos. Talvez ele pensasse em comprar alguma carne para levar para casa após mais um dia intenso e exaustivo de trabalho, como qualquer outro cidadão comum. Mas, como muitos, tenha sido obrigado a desistir, decepcionado, por causa desses preços em alta descontrolada. E talvez sua indignação tenha sido só isso. Frustração, ou raiva, ou mágoa, seja lá que sentimento ruim tenha sentido, mas que não passou desse gosto amargo de ser obrigado a desistir de algo tão banal, como levar um pedaço de carne. Sobreviver com alguma dignidade anda insuportável. Então desabafou. Reclamou. Não é proibido, não é ilegal, não é ofensivo. Ao contrário. Nós, consumidores, podemos sim reclamar. Mas este homem, ao fazer isto, ao não fazer nada demais, decretou sua sentença de morte. Perto de casa. De sua família que ficou sem pai, marido e avô. Quanto valeu a sua vida?

Numa partida de futebol, valendo quase nada num campeonato de segunda divisão, um jogador não escolhe reclamar do juiz por algo que ele marcou. Afinal, faz parte reclamar do juiz. Há quem diga que é do jogo. Embora, na maioria das vezes, seja apenas irritante, quase idiota, para quem assiste a partida e gosta do esporte. Mas este jogador escolheu não reclamar. E, num ato insano, agrediu o juiz de forma brutal e quase o matou. A cena percorreu o mundo. Levaram o juiz para o hospital. O agressor foi preso. E já está solto. Mas é muito provável que sua carreira no futebol tenha acabado. Embora vivamos num país onde até o goleiro que esquartejou a namorada foi contratado por um time. Então, nunca se sabe. O que se sabe é que a vida do juiz valeu pouco ou nada para quem chutou sua nuca sabendo a potência profissional de seu chute.

Essas duas agressões que chocaram os gaúchos e o mundo, talvez sejam nada perto do oceano de violências que vivemos em nosso cotidiano. Talvez sejam apenas mais dois fatos perto de tudo o que somos obrigados a aceitar, ou evitar, todos os dias. Criamos as redes sociais para aproximar os afetos distantes e as tornamos palco de ódio e intolerância irrefreáveis. Assédios morais, humilhações, exposições inescrupulosas. Não conseguimos debater para construir uma ideia, apenas entramos armados e dispostos a acusar, ofender, reduzir o outro a pó. Estamos achando correto resolver as coisas no soco. O que aconteceu com aquela onda que nos levava a repelir o bullying e o preconceito, que nos levava para a aproximação, ao respeito ao outro e à natureza, que tornava o amor uma moda? O que está acontecendo? Talvez estejamos rápidos demais. Vazios demais. E sufocados demais sob dias difíceis. Talvez estejamos precisando reaprender o valor da vida.


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Correio do Povo
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