Oscar Bessi

O Vigilante Rodoviário

Perdemos o policial militar mais querido do Brasil. O Tenente-coronel Carlos (vida real) e o Inspetor Carlos (ficção) estiveram em ação até os seus 90 anos, “de noite ou de dia, firme no volante”, como era o seu lema na série. O destino lhe deu uma missão num país complicado. E ela foi cumprida com louvor.

Na última segunda-feira, 17/2, perdemos o policial militar mais querido do Brasil. Aos 91 anos, o Tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo, Carlos Miranda, famoso no país inteiro como “O Vigilante Rodoviário”, morreu no interior paulista. É absolutamente incrível a história deste ícone brasileiro da dramaturgia, que conseguiu, como poucos, misturar realidade e ficção. O jovem ator, na lida desde os 15 anos entre circo e teatro, não era nem opção entre os mais de 50 atores testados para o papel principal de um seriado que seria produzido para a TV brasileira no final da década de 1950. Ajudava como assistente de produção para ganhar seus trocados e ficar por perto da arte que tanto amava. Mas o destino tem dessas coisas. A esposa do diretor pediu que ele também fizesse o teste. E aí tudo mudou. A série, que foi ao ar em 1961 e durou até o ano seguinte, foi simplesmente umas das maiores audiências da história da TV latino-americana. Porém, como Jânio Quadros deu uma de Trump daqueles tempos e sobretaxou diversas importações, dentre elas os negativos, essenciais na época para a produção das películas, o programa não teve mais como se sustentar financeiramente.

Miranda havia frequentado o curso de Patrulheiro Rodoviário, à época, para dar autenticidade a seu personagem. Com o fim da série, topou o convite para ingressar na corporação, que recém havia passado a fazer parte da PMSP. Fez provas, concursos e cursos e chegou ao segundo posto mais alto do oficialato policial militar. Mesmo após a aposentadoria, dava palestras e frequentava eventos, principalmente de carros antigos, tripulando seu Simca Chambord (na série também tripulava uma Harley-Davidson 1952, sempre com seu parceiro Lobo, um cão inteligente e corajoso). Contar as várias aventuras desse símbolo brasileiro é impossível em apenas uma coluna. É preciso um livro. Mas o importante é o exemplo que Carlos, personagem ou policial, deixou: a entrega ao cumprimento do dever, seus valores éticos e morais, a disposição, a alegria em fazer algo de bom pelo próximo, a fé inabalável no bem. O brasileiro que se sentia inspirado pelo Vigilante Rodoviário era um brasileiro que amava o respeito, a justiça, a coragem e a honestidade.

Eu conheci o Vigilante Rodoviário não apenas pelo fascínio de quem vivera aquela época e admirava o grande herói brasileiro das telinhas: na casa de um tio, em Porto Alegre, encontrei um velho almanaque em quadrinhos. Devorei sem pausa as quase cem páginas de aventuras de ótimo roteiro e desenhos. Na época, eu já era fã de Tex Willer e considerei que aquele gibi brasileiro não devia nada em ação e emoção aos italianos Bonelli & Gallep. Infelizmente a “revistinha”, como chamavam, também durou pouco. Houve tentativas de retorno, até recentes, em filme e HQ, mas nada vingou. Uma pena. Andamos precisando demais de inspirações que nos remetam a bons sentimentos. E boas ações. O Tenente-coronel Carlos (vida real) e o Inspetor Carlos (ficção) estiveram em ação até os seus 90 anos, “de noite ou de dia, firme no volante”, como era o seu lema na série. O destino lhe deu uma missão num país complicado. E ela foi cumprida com louvor.

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