Oscar Bessi

Os briques do crime

estepesMontenegro, um pouco antes das seis horas da manhã de segunda-feira. O Sargento Dionson, Subcomandante do Pelotão de Operações Especiais do 5º BPM, toma um último chimarrão antes de encerrar a preleção para sua equipe. Homem de perfil decidido e instinto policial aguçado, prestes a embarcar nas viaturas e patrulhar as ruas da cidade, faz um apelo: não passa de hoje, vamos pegar esses caras! É que uma onda de diversos furtos diários de estepes vem incomodando as forças de segurança pública e indignando os moradores. Graças ao interesse dos policiais, à tecnologia e a participação da comunidade, já se tem ideia de quem sejam e como atuam. Poucas horas depois, e após uma fuga alucinada de quarenta minutos em plenas ruas centrais, os bandidos são presos. Já com um estepe e todos os instrumentos usados dos crimes. Nem se dão ao trabalho de negar as autorias. Missão cumprida. Os policiais querem saber, então, quem é o receptador. “Ninguém”, responde um dos ladrões. “Vendemos tudo pela internet. Botamos como oferta, pneu novo de barbada, aí sai rapidinho”.

O site que esta quadrilha usava é um dos maiores portais de comércio do país. Ali, se negocia livremente qualquer coisa. Eu mesmo comprei lá uns gibis do Tex (adoro ler Tex, uma revistinha italiana de faroeste publicada desde os anos 1950). E sempre há ofertas sensacionais. Ora, quem tem carro sabe que não é nada barato adquirir pneus novos. É natural se buscar ofertas. E aí nasce mais uma rede criminosa rentável, uma nova minimáfia. Com agilidade incrível, eles abriam carros sempre novos, pois o estepe nunca foi usado, e furtavam. Escolhiam uma cidade e voltavam com seu rancho de pneus, vendido em poucos dias. Dinheiro fácil e rápido. As redes sociais também estão povoadas de briques e páginas de comércio que não são vinculadas a nenhuma loja. Volta e meia, cidadãos reconhecem nelas seu notebook furtado, o celular roubado, tênis, até carros e motos.

Bueno, bandido tem disso. Vê que é fácil, vai com tudo e cada vez mais, na lei do menor esforço. Mas facilita isto quem cria esses canais de comércio sem mecanismos de controle. E o patrocinador de tudo, assim como nas violências decorrentes do tráfico de drogas, é o consumidor despreocupado. Já se foi o tempo em que não exigir nota fiscal era boicotar o governo por sua má gestão. Hoje, exigir nota é dificultar a rede criminosa gigantesca que abastece comércios com roubos e furtos. O governo está ruim? Mude no voto. Agora, fulano quer me vender pneu novo e barato? Ok, me prove que o adquiriu legalmente. Essas páginas deveriam ter regras rígidas para que um produto fosse ofertado em seus domínios. Sua omissão é coautora. E o legislador brasileiro precisa se dar conta que há uma nova praga a incomodar o povo brasileiro e endurecer leis. Bom, mas aí é outra novela cujo triste enredo, infelizmente, já conhecemos de cor.