Oscar Bessi

Os donos do mundo

Essa mania de pensar e caminhar ao mesmo tempo ainda me trará grandes problemas. Andava eu tranquilo numa manhã destas quando, após me ver obrigado a desviar de uma sucessão de calçadas irregulares e intransitáveis – para pedestres, imagine então o safari por que passam cadeirantes, mães com carrinho de bebê, idosos e etc. -, cruzei por uma loja de peças automotivas. Calçada ampla e regular, com estacionamento no recuo em frente à loja. Tudo perfeito. Até aparecer a caminhonete.

Importada, chique, majestosa. Ingressou na calçada sem se dar ao trabalho de um sinal de pisca aos demais veículos. E veio. Não me atropelou por um triz. Seu retrovisor passou a poucos centímetros de minha testa. Não fosse eu um alto tão discreto – que os maldosos chamam de baixinho -, teria levado o meu rico nariz. Senti o vento. Um calafrio igual ao soldado que, no campo de batalha, vê o tiro acertar um alvo bem próximo de si. Susto. Coisas da minha eterna, e insistente, surpresa com a banalidade da falta de respeito pela vida.

Olhei com reprovação para o motorista, já que aquele monstro metálico não tem cérebro e não ataca por vontade sua, e aguardei sua reação. Mereci sequer a consideração de um pedido – mudo que fosse! - de desculpas. Para ele, tudo normal. Nem me viu. Não vê um pedestre, estes não fazem por merecer um embate à altura do seu carrão. Teria passado por cima e ainda me responsabilizado pelo acidente sem qualquer pudor. Seu universo está a alguns pés acima do meu e dos outros todos, meros mortais sem caminhonete. Ele era o dono das calçadas. Das ruas. Do mundo. E ai de quem colocasse isto em dúvida.

O que conto se passou numa calçada. A tal pista espremida, irregular e restrita a pedestres. Faixa de segurança, então, nem se fala. É Faixa de Gaza. Território inimigo. Ao buscar diariamente meu filho na escola, mesmo com uma criança pela mão, sou frequentemente quase atropelado. Sim. Na faixa de segurança. Um desfile de irracionalidade diária. Será que eu sou invisível e não me dei conta? Não, a vida ficou invisível. Quase irrecuperável.