Quando eu vi pela TV a cena narrada com assombro e admiração pela maravilhosa equipe da Vanessa Pires, na Record TV RS, passou um filme pela minha cabeça. Uma matéria especial do programa Cidade Alerta mostrava o momento exato em que dois policiais militares salvavam uma mulher em surto na cidade de Garibaldi, na Serra. E passou um filme porque não sei nem dizer quantas vezes, nessas mais de três décadas, vivi situações semelhantes. Não dá tempo para mais nada, são segundos que temos para avaliar a situação, encontrar soluções e agir. Qualquer vacilo pode significar a perda de uma vida. Não dá tempo para chamar equipe especializada em negociação e tudo precisa acontecer igual num tiroteio: vida e morte lutam na tua frente e apenas uma delas vai vencer, não há chance de empate, então é agir ou agir, e já. Nem sempre a gente consegue. Mas existem aquelas situações em que parece haver uma intervenção divina. Que ajuda a excelência, o preparo, a decisão de salvar tomada pelos policiais. E tudo acaba bem.
Era o início da tarde de um domingo frio na Serra. Apavorados, moradores ligaram para a Brigada Militar pedindo socorro. Uma mulher estava em surto e, no alto de seu prédio, ameaçava se jogar e, antes, atirar uma criança de apenas 8 anos. Os policiais militares não perderam tempo. Lá se foi a viatura 12335, com os soldados Sauzem e Ocir. Pediram, sim, apoio do Samu, Conselho Tutelar e Bombeiros, mas, naquele ímpeto de salvar vidas em risco, não titubearam. Arrombaram três portas. A criança estava salva. E a cena que se vê em seguida, na filmagem veiculada pela Record TV, é de arrepiar. A mulher, em transe, fora de si, uma garrafa na mão, poderia agredir os policiais a qualquer momento ou se jogar. Mas os dois brigadianos, com habilidade, inteligência e muito sangue-frio, conseguem entrar nessa batalha psicológica e vencê-la. São longos segundos de agonia até que ambos, no momento certo, a agarram. A vida da mulher estava salva. E os dois heróis apenas a conduziram para as devidas providências, com o sentimento do dever cumprido e prontos para salvar mais vidas, tantas quantas forem necessárias, no seu turno de domingo, que ainda levaria horas para acabar.
As doenças da mente são o grande mal da humanidade, hoje. E nunca será simples e nem exato lidar com uma pessoa em surto, atentando contra sua própria vida ou a de inocentes. Por isto, a ação desses dois policiais militares é heroica. É perfeita. É digna dos maiores reconhecimentos. Imagino o orgulho de seus familiares. Anjos sem asas, heróis sem capas ou poderes extraordinários afora honrar seu juramento e seu compromisso com a comunidade. Como bem diz o coronel Feoli, o fator humano, em qualquer lugar, é imprevisível, e erros podem acontecer em qualquer profissão, intencionais ou não. Agora, a grande maioria desses 18 mil homens e mulheres que vestem uma farda para defender a sociedade gaúcha atua, todos os dias, com a mesma vontade e entrega de Sauzem e Ocir, os heróis de Garibaldi. Só podemos agradecer aos dois e a todos em nome da vida. E eu, particularmente, agradeço também a um grande amigo, o bageense soldado Poschi, que já foi meu parceiro de combate ao crime, hoje é parceiros deles, na Serra, e me contou a beleza dessa história.
