Oscar Bessi

Os heróis esquecidos

Uma lógica perversa cria um paradoxo cruel: quanto mais eficientes os policiais são, mais o Estado se sente confortável em manter seus salários congelados e seus direitos desidratados, tratando a dedicação vocacionada como obrigação contratual barata.

Números noticiados costumam celebrar o recuo histórico dos índices criminais. Há menos homicídios, menos roubos de veículos, menos quase tudo (feminicídios estão entre as tristes exceções). Os belos gráficos institucionais sempre exibem linhas descendentes que servem de troféu em palanques e peças publicitárias. O que as estatísticas frias não revelam é o custo humano por trás de cada curva para baixo. Para que os cidadãos desfrutem de uma noite mais segura, a engenharia cotidiana é feita com o esgotamento de homens e mulheres que vestem a farda ou o distintivo, operando milagres diários em uma estrutura que há anos exige o máximo enquanto entrega o mínimo. E o grande mérito de tudo está lá, no front, onde vidas se colocam em risco todos os dias.

Historicamente, o debate político trata a segurança pública como um bloco de concreto — viaturas novas, armamentos modernos e sistemas de videomonitoramento de última geração —, enquanto o elemento mais vital da engrenagem é empurrado para a margem da prioridade orçamentária. Discursos eleitorais flutuam entre a promessa fácil e a justificativa técnica de que "não há margem fiscal" para recompor o poder de compra de quem arrisca a vida. Essa lógica perversa cria um paradoxo cruel: quanto mais eficientes os policiais são, mais o Estado se sente confortável em manter seus salários congelados e seus direitos desidratados, tratando a dedicação vocacionada como obrigação contratual barata.

O abismo entre o herói do discurso e o servidor do contracheque cobra um preço alto. E esse preço é cobrado na saúde mental e no seio das famílias desses servidores. Policiais civis, militares e peritos enfrentam uma rotina de escalas sufocantes, defasagem crônica de efetivo e a sensação de que o Estado só se lembra de sua existência no momento do sepultamento. E olhe lá, que se der para dificultar a pensão de quem fica, se dificulta ao máximo. Lamentável. A valorização real não se faz com tapinhas nas costas ou medalhas entregues em cerimônias pomposas. Ela se faz com dignidade financeira, com a certeza de que o sustento dos filhos não será corroído pela inflação e que o direito à aposentadoria justa não será tratado como um privilégio a ser extirpado. O calendário avança, o debate sobre o futuro do estado se intensifica, mas o silêncio ou a abordagem superficial sobre a dignidade do servidor da segurança pública ecoa como um alerta. Fiquemos atentos.