Confesso, lembrei do Holocausto. Li a notícia no portal do Correio do Povo: “clínica geriátrica” denunciada por maus-tratos, cárcere privado, abusos sexuais, extorsão, violência física e verbal, falta de higiene, uso de cartões e dados bancários dos pacientes até para contrair empréstimos. O cardápio de maldades é vasto. Só mais um daqueles casos que provoca náuseas, que nos chocam, mas infelizmente se repetem com uma frequência bizarra. Pudera. Se notícia ruim fosse modalidade olímpica, seria difícil tirarem o ouro do Brasil. Uma dado? Entre 2020 e 2023, mais de 400 mil idosos foram vítimas de maus-tratos no país. Outro? Quase 170 mil meninos e meninas foram vítimas de violência sexual. Neste mesmo período. E 15 mil crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta. Vou parar por aqui, ou parecerá que somos exclusivamente essa cultura de agressões e maldades. E quero crer que somos muito mais do que isso.
“Eutanásia” ou T4. Era como a turma de Hitler chamava a sua política de Estado que eliminava indivíduos chamados “inúteis à sociedade”, ou seja, que tivessem algum tipo de deficiência física ou doença mental. Muitas crianças e idosos foram escolhidos para morrer nesta leva. Credita-se mais de 200 mil mortes a este macabro programa, entre os anos de 1939 a 1945. Comparem os dados. Estaríamos competindo com os nazistas em índice de crueldade e desumanidade? Logo nós, que falamos tanto em ser o berço da alegria, da irreverência, do colorido, da defesa com unhas e dentes da nossa liberdade democrática? Algo está errado. Quando o que deveria ser uma exceção se torna comum demais, a ponto de se repetir com uma tal frequência que já nem nos surpreende ou abala, é hora de revisitar o mais profundo de nossas almas. Algo está fora de controle e não estamos dando a mínima. Caminhamos indiferentes em meio ao maremoto sem perceber que a próxima onda pode nos devorar.
O mais interessante, e preocupante, disso tudo é que não vivemos sob o domínio e delírios de um louco, como a Alemanha daqueles anos. Não temos a pretensão de nos declarar raça pura (até porque, para nós, seria impossível já desde a primeira invasão portuguesa). Nem sonhamos com uma sociedade perfeita – a não ser que alguém considere bagunça uma espécie de perfeição às avessas. Ao contrário, nossos índices alarmantes de violência são construídos por nós. Todos nós. Em nosso cotidiano. Quando um depósito de humanos se camufla de clínica e chega a tantas vítimas, durante tanto tempo, é porque houve quem achou muito conveniente deixar um familiar ali. Houve quem adorou se livrar e nem quis saber o que acontecia, ou soube e deu de ombros, melhor assim do que ter que carregar o fardo. Até que surge alguém que precisava e queria mesmo ajuda e apoio, viu o que acontecia e tomou uma atitude. Soldados nazistas não faziam nada sozinhos, tinham ajuda especializada. Essas falsas clínicas não saem caçando gente de carrocinha pelas ruas. Alguém leva os seus lá. Pior: deixa lá. Descarta. Alguns, nem voltam para saber o que acontece. Maltratar ou deixar maltratar por conveniência: o que é mais desumano?
