Oscar Bessi

Os limões e a liberdade

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 Era uma dessas tantas tiras de asfalto sem qualquer centímetro de acostamento, exclusivas para veículos velozes e proibidas a pedestres, bicicletas, cavalos, tratores ou qualquer diversidade humana, que uns conseguem chamar de estrada. Na minha frente, um caminhão carregado de limões. Caminhoneiro veterano, velocidade calma. Embora outros carros passassem voando, riscando retas na sucessão de curvas, segui atrás do limoeiro - putz!, e assim que se chama quem transporta limões? Limoeiro? Recordei uma cantiga de infância: “meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá, uma vez tindolelê, outra vez tindolalá”. Na volta pra casa, cataria a cifra na internet. Gosto de tocar violão pro meu bebê. Andar com calma na estrada é bom por isto, a gente pensa. Até bobagem, mas pensa.

De repente, numa curva, pulou um limão. Rodou faceiro e saltitante pela pista e se escondeu no mato. Veio outro. E outro. Eram limões em fuga. Eles queriam a liberdade de ficar na natureza e não virar suco, mousse, picolé, refri ou caipirinha. Nem serem esmagados temperando peixes. O quarto limão a criar coragem e fugir, acabou esmagado por um ônibus que vinha na pista contrária. Morreu feliz, eu pensei. Tentando ser livre.

Tá, baita bobagem. Limão nem pensa. E todos eles caíram apenas por uma lógica da física. Mas aqueles meus devaneios a vinte por hora valeram uma crônica porque, naquele mesmo instante, alguém defendia a volta da ditadura no rádio. Imediatamente lembrei o caso onde um bebê de um ano e oito meses, filho de um jornalista, foi torturado, em 1975. Com pancadas e choques na frente do pai. Jogado no chão. Chutado. Sim, um bebê.

Nada explica a tortura. Nada explica uma ditadura. A gente quer mudanças, quer melhoras e questionar modelos de gestão? Beleza. Nossa democracia não anda bem conduzida? Mas é democracia, basta saber escolher diferente. Há necessidade de dar um basta na inversão consumista e lucrativa de valores, no desprezo à educação, na desvalorização do humano como princípio básico de tudo, na impunidade incentivada? Perfeito! Mas pedir ditadura?

Não. Eu não quero governos que torturem crianças em nome do seu poder. Eu quero um governo que não permita isto. E nem qualquer violência, seja contra o nosso físico, nossa alma ou nosso bolso. Só não entende o valor da liberdade quem nunca a perdeu. Que depois, pular de caminhão andando em estrada estreita, olha... É bem perigoso.