
No tabuleiro das drogas e da violência, os peões vão para o sacrifício antes. Armados, usados, asfixiados pelo vício ou por falsas perspectivas - e antes as falsas do que perspectiva nenhuma, eles devem pensar - são descartáveis. Peças de pouco valor. Mais um, menos outro, tanto faz. Seguem efêmeros, como essa fumaça em tons de pesadelo, ou este cheiro de pólvora na guerra fratricida. Todos. Os que apertam o gatilho e os que recebem as balas, os que deixam lágrimas e os que espalham sangue pelas ruas. O que matam e dão de ombros. Os que morrem, mas ninguém se importa. Nada além do mais novo número esquecido pela próxima planilha. Boi de abatedouro que já aceitou, é bife, é guisado, é churrasco. E vai morrer só para lambuzar beiços, nalgum banquete de quem nem conhece. Os peões. Que morram, mas que protejam seus reis.
O atentado de sexta, na Vila Cruzeiro, foi apenas mais um triste capítulo dessa história sem fim. Típico da violência que se torna banal e agride, física e psiquicamente, milhares de vítimas todos os dias. Violência que nasce de rendições. Desistências. Da desumanidade que multiplica jovens bandidos e suas armas pesadas, ou jovens perdidos, ou acuados. Na origem, nada além de seres humanos atrás de reconhecimento e respeito, na busca de qualquer espaço nesse mundo estreito onde vivem. Os espaços? Escondidos na omissão. Na incompetência para se resolver questões - mínimas! - de dignidade que incentivam revoltas. Na corrupção que dá o tiro final em qualquer esforço de resgate e cidadania. A guerra segue, os peões ajustam suas contas e se perdem por aí, no ataque, na distorção. A violência vira uma nuvem pesada e opressora, mas que não nasce do acaso. Jamais haverá qualquer nesga de luz enquanto a inércia servir à ganância. E os peões aceitarem, passivamente, serem meros idiotas suicidas do tabuleiro preparado.
A indústria do narcotráfico lucra, no planeta, tanto quanto a indústria automobilística, petrolífera ou de eletro-eletrônicos. Não é à toa que gere tantas guerras. Tantas mortes. E tamanha corrupção. Ela também usa a sua grande massa consumidora, precisa dela para elevar suas cifras. Se os Estados Unidos querem aumentar seus lucros e invadir um país que produz petróleo, manda seus jovens morrer no front, vestidos de soldados a matar em nome de parcas mentiras. Se o crime organizado brasileiro, em suas mansões, quer seguir com lucros gigantescos, faz igual e se regozija vendo o genocídio pela tevê. Como abrir os olhos dessa juventude usada assim, tão fácil? A única alternativa possível seria a educação. Mas...
