Os presídios que não prendem
capa

Os presídios que não prendem

Para evitar o caos, se solta quem não se deve soltar e, quem fica preso, encontra na cadeia uma realidade cultural de benevolência. E a fragilidade constrangedora do poder público. Do cidadão.

publicidade

(coluna publicada na edição impressa de sábado, 05 de outubro de 2019)

 

Seis bandidos fugiram do presídio estadual de Carazinho. Basta olhar o currículo das criaturas para se ter uma ideia do perigo que oferecem à sociedade. Homicidas, assaltantes, ladrões. Tipos violentos. Em janeiro deste ano, agentes da Susepe já haviam evitado a fuga em massa de 13 presos. Apenas dois conseguiram se evadir da casa prisional. Em março, os agentes penitenciários flagraram outro preso tentando fugir e o impediram. Desta vez foi na surdina. Os delinquentes aproveitaram a fragilidade da edificação construído e conseguiram cavar um túnel. Agora estão nas ruas, prontos para matar e roubar outra vez. Não é um tipo de fuga inédita. Mas só acontece por causa da vulnerabilidade. Presídio não pode ter paredes de um edifício normal. Culpa de quem venceu a licitação e precisava lucrar, ou de quem?

Já passou da hora de repensar o sistema carcerário no Brasil. E não é se restringir ao debate sobre número de vagas para novos presos. Até porque é preciso, para ontem, uma política pública séria de educação que freie esta fábrica de bandidos e puxe nossos jovens para o melhor caminho. Que incentive humanidades na contramão da violência, da pressa e do consumismo. Utopia, sabemos. Então se precisa vaga, porque as polícias brasileiras mostram sua eficiência todo dia ao prender milhares de criminosos. Se esta eficiência contagiasse todo o sistema de persecução penal, aí o índice de presos seria de milhões. Para evitar o caos, se solta quem não se deve soltar e, quem fica preso, encontra na cadeia uma realidade cultural de benevolência. E a fragilidade constrangedora do poder público. Do cidadão.

Passou da hora de se terminar com essa barbaridade que são as celas nos presídios. Casas inteiras num cubículo. Preso não devia ter nada, mas tem. O deboche dos fugitivos de Carazinho mostrou. Os que saíram, fizeram selfie logo que saíram, rindo num carro. Os que ficaram, gravaram vídeos dos companheiros fugindo. Tudo na internet, feito piada. Enquanto escolas e postos policiais não têm internet, preso tem, e à vontade. Por quê? Porque é desumano exigir de poucos carcereiros, com as dificuldades de recursos que têm, a árdua tarefa de fiscalizar esses presídios cheios de gente, de celas lotadas de objetos e cobertos de garantias protecionistas. O certo era preso não ter TV, rádio, nada afora as roupas de uso. Está preso, fim. Escolheu isto. Não é hotel, é cela. Não é férias, é punição. Mas tem presentes de visitas e regalias legais. E se um diretor de presídio terminar com isto, mil políticos oportunistas o executarão. Presos cavam túneis porque conseguem ter ferramentas, ou meios de escondê-las. Não se afeta dignidade humana ao não permitir certas coisas. Ao fazer com que cumprir a lei seja sério e não valha a pena. Mas afeta a dignidade humana de toda uma sociedade vítimas de bandidos, e a segurança dos agentes penitenciários, continuar este deboche assim como está.