Oscar Bessi

Ovos de ouro: pobres crianças!

A Operação "Ovos de ouro", desencadeada pela Polícia Civil de Gravataí e noticiada aqui pelo Correio do Povo, nasceu graças à denúncia de um pai. Um pai de verdade que teve coragem e não se calou. Os autores da exploração sexual da adolescente? A própria mãe da menor e o padrasto. Usavam a menina para ganhar dinheiro, agenciando-a para programas sexuais, a ponto da mãe (não, né?, não dá para usar este termo) usar a expressão "nossa galinha dos ovos de ouro" ao se referir à própria filha. Monstruoso. Bizarro. Parece até literatura ou filme, mas é a vida real.

O pior: segundo informações preliminares, um ex-vereador de Glorinha, de 70 anos, proprietário de uma rede de motéis onde teriam ocorrido os abusos, estaria envolvido nos crimes. O sujeito usava dinheiro do povo para praticar seus crimes contra crianças e adolescentes. Bom, não seria o primeiro e nem o último, não é mesmo? Houve um sujeito que foi filmado no seu gabinete de vereador, aqui no RS, fazendo farra com menores de idade. Resultado? Assumiu uma cadeira no parlamento gaúcho. Mas que tal? Segundo a Delegada Marina Dillenburg, em sua belíssima entrevista à Rádio Guaíba, o padrasto desta adolescente seria uma espécie de "faz-tudo" contratado pelo ex-vereador.  Uma máquina cruel e monstruosa de abuso sexual e dinheiro.

No Brasil, só o Disque 100 recebeu, em 2015, 80,4 mil denúncias de abusos contra menores de idade. Em 2014 foram outras 91,5 mil. Nenhuma diminuição a ser comemorada nestes números. É a maior causa de violência contra pessoas no país - em segundo lugar vem a violência contra idosos, com 32,2 mil denúncias. Números bem mais pesados que as demais violências registradas (contra pessoas com deficiência totalizaram 9,6 mil, relativos à população LGBT foram 1,9 mil, desigualdade racial chegaram a 1,06 mil e sobre violência contra a mulher a 1,5 mil).

Entretanto, se olharmos os movimentos de propaganda a favor de direitos, ou contra violências, não se parece dar muita atenção para estes dados. Aliás, nossa cultura não se importa muito com a violência sexual contra crianças e adolescentes. E, enquanto isto não mudar, mais e mais milhares de vítimas, em tenra idade, serão tratadas como "galinhas dos ovos de ouro" ou fonte de taras e depravações por doentes que habitam suas próprias casas, e que deveriam protegê-las, não violentá-las.