Oscar Bessi

Pátria queimada

Está mais do que na hora de olharmos para dentro do jeito de ser e viver da nossa pátria amada e tomarmos atitudes

Com gana e urgência na enxada, o bombeiro cava o chão, no Pantanal. O local parece ter sido já dominado e ao fundo se vê que fumaça e fogo estão mais adiante. Mas a qualquer momento ele pode ser surpreendido pelo incêndio subterrâneo, ou “fogo zumbi”, como alguns chamam, e se ver cercado pelas chamas onde elas já pareciam não existir mais. A turfa, material orgânico acumulado pela vegetação decomposta e soterrada, é combustível altamente inflamável. Em toda a extensão dos incêndios, há uma luta desigual e incessante, exaustiva, interminável. A saúde física e mental destes combatentes é posta à prova em todos os seus limites. Ainda assim, a todo momento surge uma nova cena emocionante de resgate. De vidas salvas. Animais em pânico, sem entender nada de como se chegou a uma súbita desarmonia, encontrando amparo e no colo dos soldados. Seres humanos sem ter para onde ir, todos acolhidos e retirados da desesperança que arde nas brasas que devoram a tudo. Enquanto isso, em São Paulo, moradores de um morro jogam desesperados baldes de água contra um fogo que sobe a encosta, veloz e ameaçador, erguendo labaredas maiores que suas casas, como uma tropa de fantasmas incandescentes e famintos.

Um super calor e uma seca histórica tomam conta do Brasil enquanto o país ainda tenta ajudar, de alguma forma, a reconstrução do Rio Grande do Sul, devastado pelas águas de maio. E o problema, agora, não é apenas o clima, hostil como parece ser a tendência desta nova era – da colheita desta nossa secular e inescrupulosa devastação ambiental -, mas também a ação de criminosos. Forças policiais já prenderam em flagrante diversos indivíduos no ato em que punham fogo em zonas de mata. Em canaviais. Em campos secos. Há quem defenda que quase a totalidade das queimadas em série que estamos vivendo – mais de 70 mil focos de incêndio registrados só em agosto deste ano - sejam resultados de ação humana intencional. Inacreditável. Ou nem tanto. Eis que desde o pontapé inicial dado à devastação exploratória na carta que afirmou que “em se plantando, tudo dá”, os limites essenciais foram ignorados. E nossa convivência humana, nesta pátria, se tornou algo culturalmente violento e escaldante.

Quando homens saem para queimar florestas sem um motivo que vá além do crime ou ganância, quando uma mãe esfaqueia brutalmente sua pequena filha várias vezes por qualquer represália ao ex-marido, quando um playboy persegue um motociclista até matá-lo por causa de um toque no retrovisor, quando ladrões baleiam e abandonam uma jovem à beira da estrada apenas para levar sua moto, quando golpistas inescrupulosos invadem redes sociais se intitulando influenciadores, quando atiradores psicopatas invadem escolas para matar crianças e homens ciumentos e possessivos decidem matar mães e seus filhos, a gente conclui que há muitos incêndios a apagar neste país. Que sempre quis ser livre. Mas está doente. Muito doente. Nosso povo machuca e se machuca sem pudor nem controle. A fábrica de psicopatas está a pleno vapor. Está mais do que na hora de olharmos para dentro do jeito de ser e viver da nossa pátria amada e tomarmos atitudes. Mas atitudes, eu disse. Que ficar sentado só teorizando não apaga fogo nenhum e nem salva vidas.