Oscar Bessi

Pacote sem tampa

Correio do Povo, edição impressa de sábado, 02/07/16.

 

Quinta-feira, após o anúncio do “pacote” do governo estadual, o sentimento dos profissionais de segurança pública gaúchos era de frustração. Ou de aceitação. Afinal, só se confirmava o que já era esperado. “Melhor que nada”, e um beiço torcido, era o comentário mais positivo que se ouvia entre os que labutavam, naquele momento, contra o crime nas ruas, delegacias, quartéis, presídios, salas de perícias e viaturas pampa afora, enquanto a Rádio Guaíba e o Correio do Povo faziam chegar a todos, ao vivo, as novas notícias das ações. Pelo menos o governador reconhece que são insuficientes. O Rio Grande do Sul não vive dias fáceis e nem os enxerga no horizonte. Incompreensível para um estado rico, de potencial econômico gigante, que tem superporto, refinaria de petróleo e pólo petroquímico, que conta com intensa e forte tradição agropecuária, indústrias pujantes e um povo que nunca foi chegado à malandragem. Incompreensível saber que o Acre não tem essa arrecadação toda, mas anda melhor nas finanças, respeita seus funcionários e o seu povo. Quem mexeu tão fundo neste queijo, afinal?

O que me incomoda, nestes chamados “pacotes de segurança”, é a visão curta. Restrita. Está certo que todos nós sabemos o quanto a política, e os políticos, jogam para a torcida. Mas esse desprezo contínuo à inteligência coletiva parece só mais um capítulo escrito, e com roteiro revisado, da novela onde somos escalados para fazer o papel de gado no reponte. Ora. Digamos ao diabético que ele terá remédios, terá cirurgia, mas não digamos que ele precisa mudar hábitos alimentares e de comportamento. Adiantará? Ou só deixaremos certa uma próxima e necessária intervenção? A caixa d’água vaza. Vamos anunciar um pacote de compra de baldes e panos que sequem o vazamento. E os buracos, seguirão lá, livres para trabalhar e mandar mais água para baixo? Adianta? Ao olhar de uns, resolve. Seca o chão. Mas se houver alguém disposto a resolver, de fato, o problema, vai exigir um pouco mais.

Os “pacotes de segurança”, aqui ou no Rio de Janeiro, de governos estaduais ou federais, são sempre resumidos à mesma matemática: uns milhões (sempre parcela bem tímida da arrecadação) em material, mais soldados e fim de papo. Vamos contratar gente só pra morrer ou matar em combate? É assim que se busca a paz, apenas fortalecendo um lado da guerra e dando a missão como cumprida? Não. É óbvio que precisamos vencer, e com força, atitude e ação – mas não só do Poder Executivo, nem só de governos estaduais – esta onda de criminalidade que cria um exército inimigo solto nas ruas a matar inocentes. Mas precisamos é estancar essa fábrica de bandidos. Frear a realidade brutal que incentiva jovens ao crime, tirar da vitrine essa grife do mal. E enquanto um pacote de segurança não falar com força, e conjunto, em incluir investimentos fortes e amplos em educação e cultura, não frise que é preciso mudar futuros e olhares, será assim, mero pacote sem tampa. É secar o chão. Varrer a sujeira para debaixo do tapete sem resolver o problema.