(imagem: Angry Shout Man Illustration, Don Bishop, St Louis - Publicada no fineartamerica.com)Não sou um sujeito habituado aos palavrões. Mas, vez em quando, eles escapam. Dia desses, por exemplo, eu cozinhava, fui fritar um ovo e me queimei. Barbeiragem masculina. O grito furioso veio meio milésimo de segundo depois. Outro dia, o culpado foi o Nilmar. Perdeu um gol imperdível e, quando vi que a bola não entrou, o palavrão saiu, junto com o pulo que dei no sofá e o soco no ar. Não posso assistir futebol ou ficar brabo, que aí o lado italiano de pai fala mais alto. E bem alto. Tenho esse defeito e é bem chato, reconheço. Prefiro minha parte mais mansa. Sou ítalo-caboclo, entre outros sangues. Talvez tenha sido um dos motivos para o psiquiatra dobrar meus remédios: se a tristeza é nociva, certos gritos também são. No mais, sou calmo. E falo pouco, exceto quando me empolgo num debate. Ou quando converso com estudantes sobre literatura. Aí, fico tagarela. Mas não digo palavrões.
E os palavrões existem em todas as línguas da humanidade. Conheço os nossos, óbvio, e alguns em inglês - resquícios de certos filmes proibidos que vi na adolescência -, poucos em espanhol e só os mais corriqueiros em italiano. Alguns em alemão já me ensinaram. Um palavrão em japonês, ou em árabe, só entendo pela careta. Coisa incrível é que todos eles remetem às mesmas imagens: sexo, órgãos sexuais, necessidades fisiológicas. Tento entender o sentido disto. O que me fez, ao queimar o dedo, gritar o nome mais vulgar da genitália masculina, assim, sem pensar? Qual a relação? Não, nada a ver com alho ou com o ovo, pois já gritei o mesmo ao dar uma topada e bater com a cabeça na porta do carro. Qual o sentido de relacionar uma profissional do sexo com cocô e gritar “puta merda!” só porque o Nilmar deu um bicudo bisonho na cara do gol? Outro dia, no terminal bancário de autoatendimento, um sujeito ao meu lado - conheço-o desde os tempos de escola, onde já ensaiava suas bravatas de conquistador que pega, pelo menos em suas histórias, quase todas as mulheres da cidade - resmungou o nome alternativo da vagina ao ver seu extrato de conta. E não era cara de prazer, a que ele fez. Vá entender.
Aliás, nos momentos íntimos, de prazer intenso, “as palavras sujas” (como dizem os poetas) percorrem as bocas mais recatadas com desenvoltura, desejo e leveza. No trânsito também aparecem fácil, feito buzinas, e até o saudoso Scliar pediu desculpas públicas numa crônica por ter xingado - e decepcionado - uma senhora, sua leitora. O palavrão é uma ciência, dizem que mexe com algo que está no porão do nosso cérebro. É uma libertação, um escape nos instantes de sensações máximas, seja tensão, dor ou prazer. Aham. Por isso desconfio dos norte-americanos. Bah, que povo é esse que grita “Oh, meu Deus!” quando tem um orgasmo?
