Oscar Bessi

Paraná: 17 policiais presos por respeitarem os professores

Vivemos numa democracia. Pelo menos, era pra ser assim. Com liberdade de expressão e manifestação. De escolhas. Algumas arbitrariedades em nome do poder público não cabem mais, assim como é inadmissível o preconceito, a discriminação, a violência como instrumento de uma suposta e desejada ordem. E o episódio do Paraná, no conflito entre professores (manifestantes) e a Polícia Militar, mostra - sem ser privilégio brasileiro, pois fatos similares ainda ocorrem até na Europa - o quanto ainda precisamos evoluir na concepção de estado. Por que ele existe, para quem ele existe? Um governo não pode ser de governantes, de grupos, de siglas, de interesses. Um governo deve ser para seu povo, que o escolheu. Assim como todo o seu aparato de recursos humanos e materiais.

A velha fórmula de usar a máquina pública para satisfazer e atender amigo, e não ao grande coletivo a quem esta máquina se destina, segue como um vício sem cura. Um câncer irremovível. É incrível que ainda se use a polícia, sustentada e financiada pelo povo, para agir contra este. Segurança Pública deveria se restringir ao que de fato a justifica: prevenir crimes, desmascarar criminosos, defender a sociedade. O povo. Não políticos efêmeros e passageiros.

Não havia um exército armado de traficantes com fuzis. Eram apenas professores. Os pais da educação de nossos filhos, os grandes condutores das melhores possibilidades de futuro que este país, de história tão conturbada e maltratada, pode ter. E o que eles queriam? Participar. Ingressar na Casa do Povo, o parlamento paranaense, onde seus - sim, seus! - representantes tratariam assuntos de seu - seu, repito, seu! interesse e se fazer ouvir. Participar. Mudar, se fosse preciso. Qual o crime que reside em exercer o que lhe é da cidadania?

Não vi, nas fotos do lamentável episódio, os black blocs que o governador paranaense usou como justificativa. Vi senhoras. Senhores. Educadores e formadores. Todos feridos, como uma sociedade inteira restou ferida. E a polícia ferida em sua essência, ao aceitar tal papel.

Mas, quem leu o Correio do Povo de hoje sabe, há 17 soldados presos, lá no Paraná, por não aceitarem a ordem superior de participar disto. Rogo aos movimentos de defesa dos direitos humanos que amparem estes policiais. Pois eles serão, com certeza, massacrados disciplinarmente dentro de sua corporação, e quem sofrerá o maior prejuízo serão as suas famílias. Por quê? Porque pensaram, e dentro deste belíssimo princípio democrático que é a garantia da liberdade individual, decidiram agir conforme as suas consciências. Suas almas e seus corações. Optaram por não fazer parte do cerco do impossível, por não agredir, por não ir contra aqueles que são seus aliados primeiros por natureza. São bravos, estes 17 soldados. Honram a farda que um dia vestiram para, como diz o próprio solgan da PM paranaense, ter o compromisso de proteger seu povo. Sim, eles cumpriram seu dever.

Resta a infeliz conclusão de falta muito para chegarmos à real democracia plena, em todos os rincões deste país. Antes de qualquer coisa, os professores precisam ser respeitados. A Educação precisa ser respeitada. Por deputados, por policiais, por governos. É a única chance que o Brasil tem.