Oscar Bessi

Parcelar

Virou moda. Depois que o governo decretou que precisaria parcelar em até dez vezes, com quase nada de entrada, as merrecas, digo, os salários de certos servidores públicos (os comuns, talvez desnecessários para a sociedade, como professores e policiais), ou não conseguiria honrar outros compromissos mais urgentes – como pagar em dia e com reajuste os belos salários do parlamento, ou os belos salários dos diversos assessores de cada integrante deste parlamento, ou auxílio-moradia para pobres categorias que não ganham nem quarenta mil por mês -, depois disso é que tudo anda assim, com essa mania de se parcelar. Mania que pega mais que gripe A. O bom futebol do Grêmio, por exemplo. Até deu uma entrada no Gauchão. Mas se perdeu por aí e avisou, na Argentina, que não tem previsão de quando virá a próxima parcela.

O povo precisa entender e ser solidário nestas horas. Aderir. Como no tempo do bigode do Sarney. Quem lembra? Eu era guri e tinha um bigodinho de papelão daqueles, vivia no armazém da esquina fiscalizando, investido de puro patriotismo, preços. Da bala sete belo e da paçoquinha. Vamos todos sair com um novo bigodinho com a legenda “eu parcelei”. Mas cuidado. O fio do bigode não é para qualquer um. Nem o fio da meada. Mas precisamos insistir: decidi que o meu primeiro parcelamento, por exemplo, seria na compreensão da verdade. Já que a verdade dói, vamos parcelar esta dor. Impossível? É. Estou achando, também. Procurei, desesperado, pelas meias verdades que me cercam e com as quais nunca me dei bem. Estava disposto a lhes dar uma chance, olhar o seu lado bom e côsa e tal. Bah, tchê. Não é que até as meias verdades já me surrupiaram?

Penso nas vantagens do parcelamento se ocorrer em alguns outros campos da nossa vida. Os criminosos, se aderissem a este pacto em consideração aos agentes de segurança pública, nos dariam alguma goela. Sujeito vai te assaltar e diz que pode ir entregando a sua vida e o seu dinheiro aos poucos. Ficaremos felizes, porque seguiremos vivos e, enfim, nem será nada tão diferente dos impostos que já pagamos: hoje um te leva algo aqui, amanhã outro te leva ali, semana que vem mais coisa tua vai pro beleléu e assim por diante. Já somos assaltados em parcelas. Pelos governos.

Bom, a única certeza que temos após um assalto é que seremos assaltados de novo. Só não deixaram data marcada, mas não deixa de ser parcelamento. Alguém lançará a campanha em redes sociais, #partiuparcelar.  E, hoje, tudo que é bizarro ganha milhões de adeptos por aqui. Só não entendo porque a gente, que tem os direitos, a dignidade e o respeito parcelados, não pode também parcelar deveres. Como pagar impostos. Eu queria parcelar os meus e não consigo, o Leão me pega. Eu tento desviar a atenção dele e aponto pros caras que desviam das estatais, das obras públicas e desses sei-lá-quês por aí, mas não adianta. Leão brasileiro só come peixe pequeno. E nada de parcela: engorda à vista! Eu, hein.