Oscar Bessi

Peladeiros



 

Gosto de futebol. Menino, sonhava em ser jogador. Talvez muitos da minha geração sonhassem igual, embalados pelo gingado de Rivelino, Zico, Sócrates e outros tantos. Assistíamos ao Canal 100 no cinema, antes dos filmes do Mazzaropi, Didi ou Giuliano Gemma, e vibrávamos como num estádio, mesmo sendo videotape. Jogávamos bola quase todo dia, em qualquer campinho do bairro - e campinho nem precisava ser campo. Quase nunca era. Nosso maior crime? Quebrar um vidro da casa vizinha. Pergunto: onde foram parar os campinhos? O que fizeram com o berço dos grandes jogadores da nossa história? Respondo: a urbanização mercantilista, sem espaços decentes para as pessoas e suas diversidades, suas diversões e suas humanidades, os engoliu. Os meninos que jogavam bola? Estão por aí, perdidos nas esquinas do nada, nos breus, matando e se matando.

Futebol é da cultura e da identidade brasileira. E nem sediar Copa do Mundo reverteu o descaso ao futebol amador, à pelada saudável dos bairros, à fome das máfias bilionárias dos cartolas. Vem, daí, um trágico fenômeno de decomposição em várias frentes. Foi o que concluí após os dois últimos fiascos da seleção brasileira. E ao ver o Inter tomar uma aula de futebol do Tigres, que nunca ganhou qualquer título importante na vida. Desta vez não houve sorte ou falhas adversárias para ajudar. O Cruzeiro, goleado em casa pelo River Plate (pior campanha da primeira fase) e o bajulado Corinthians (surrado pelo tímido Guarani paraguaio) anteciparam o fracasso brasileiro na Libertadores. Temos craques? Talvez Neymar, menino cuja postura passa longe de um Zico, mas a mídia o leva além. Os outros, medianos, que pensam antes na tatuagem e no cabelo e depois na bola, cuja pitoresca relação com seus pés parece seguir os ritos implicantes de Brutus e Popeye.

Deixamos de ser referência mundial em craques e temos o infeliz título mundial do crack. Uma lástima. Sou dos que acreditam que esporte e cultura salvam a juventude de muitos males. Principalmente drogas e violência. Não é tudo, claro, mas é boa parte. E o que se tem são só algumas belas iniciativas que pingam lá ou acolá, fragilizadas pela falta de apoio. Aí faço um parâmetro com as nossas crises econômicas e as respostas da natureza ao desequilíbrio que nasce da mesma cobiça de poder e lucro: nossos estrelados, os mais bem pagos, os donos da bola, estão perdendo tudo de goleada. Em todas as frentes. Então, passem-na aos peladeiros. Aos que sabem driblar a vida com naturalidade, arte e harmonia. E o equilíbrio de ser simples. Queremos o mundo mágico dos clássicos de campinho. Puro. Brigado, mas sadio. Onde o maior crime seja quebrar a janela do vizinho, não deixá-lo sem casa.