Oscar Bessi

Pequena dica para ser feliz hoje

batatafritaSemana passada perguntei a um menino, sentado ao meu lado, o que o faria feliz. Não quis saber se era um menino pobre ou rico, nem que ventos o traziam àquele lugar. Era uma sala de espera de um escritório qualquer. Compartilhávamos espera e silêncios.

- Uma batata frita! -respondeu na hora. Ele me olhou e sorriu. E voltou aos seus pensamentos.

Felicidade pode ser isso. Uma coisa simples, que se quer muito, e nem é preciso parar para se pensar sobre. Felicidade não se calcula. Ela está ali, pulsante, convicta, impressa na retina e querendo ser sólida, saborosa, aromática.

Quando eu era menino, nos anos 70, quis ter dois brinquedos: um Falcom e um autorama. Tudo pelas propagandas da TV. E olhem que era uma Telefunken preto e branco, mas impressionava a molecada. Porém, se alguém me perguntasse isso, o que eu queria para ser feliz, não respondia nenhum dos dois: eu queria era uma bola número 5 oficial, de gomos verdes e brancos, que vi numa loja quando Palmeiras e Guarani decidiram o campeonato brasileiro. Sonhava com ela. Um dia até acordei achando que era uma, ao meu lado, na cama. embrulhada num papel. Não lembro o que era. Mas não era minha bola dos sonhos.

Nunca tive Falcom, nem autorama, nem bola número 5 de cor nenhuma (ainda existe bola número 5?).

Hoje me pergunto se eu teria sido mais feliz se tivesse ganho pelo menos um dos três. Ou os três. Talvez não.

Quando me tornei pai, no início dos anos 90, eu não tinha grana para comprar a Barbie para a minha filha, era muito cara. Ursinho de pelúcia também. Eu recebia uma merreca menor que salário mínimo. Mas, um dia, juntei as nicras e me fui ao camelô, comprei uma rata gigante (rata de pelúcia custava um terço dos ursos) e trouxe aquilo no Paulino Azurenha lotado. Minha filha fez uma festa e andava agarrada naquela rata por muito tempo. Como agarrou duas bonecas que ela chamava de Barbie, mas a caixinha do mesmo fornecedor nada regular dizia um nome bem diferente. Só a peruca era parecida.

O tempo foi passando. Tive mais dois filhos (um por década). Consegui comprar presentes melhores - e originais.

Percebi que a cada presente dado, que eu reverenciava lembrando das impossibilidades da minha infância (sim, ainda adoro entrar em loja de brinquedos, tanto quanto em livrarias), ou dos sonhos que não concretizei, a reação de meus filhos mais novos era de entusiasmo, tudo bem. Mas só ao receber o presente. Sua empolgação era tão passageira que era como se não tivesse qualquer significado aquele presente.

- Bah! Mas eu te dei o batmóvel, Gê! Já quebrou? João, o que houve com o escudo do teu Capitão América?!

E a gente olha ao redor e tudo soa meio assim, descartável. Tudo muito demais, facilmente substituível, abundante, asfixiado pelos apelos em rajada. O auge da era do consumismo. O ignorar do sonho, do esforço, da construção de uma luta para se chegar na conquista por tanto tempo almejada. Tá tudo meio insípido, insosso, inodoro. Poucas coisas têm graça. Brinquedo caro e isopor velho, nenhuma diferença

E, dentre as poucas coisas que ainda têm graça, sobra o esporte. Mas o esporte entre os meninos não se segura sem o apelo do glamour, e aí é para poucos, os espaços são para poucos, as fortunas de patrocínios são para os mesmos de sempre. Nas esquinas do meu antigo bairro, onde vivi grandes campeonatos de bola-de-gudi e peladas históricas, só vejo asfaltos sem bueiro e meninos no crack.

Desalentador.

Ostentação, poder, vidas midiáticas, redes sociais transformando gente comum em personagens de si mesmos.

Gente sem alma. Zumbis. Uma geração sendo arremessada ao vazio.

Talvez esteja faltando pararmos para ensinar aos nossos filhos como é sonhar com felicidades mais simples. Tão simples que possam ser para hoje, que pareçam ser só hoje, mas cuja sensação seja tão boa que dure para sempre, mesmo que não percebamos. Precisamos inundar nossas vidas de felicidades mais sutis, mais densas, com muito mais alma e sabor.

Felicidades pequenas e constantes.

Felicidades boas feito um abraço. Ou batatinha frita feita em casa.