Que o novo ano traga algumas alegrias. Que sejam poucas, que sejam efêmeras, mas que nos façam bem. Que a falta do dinheiro público (este que se evapora nalguma mágica pra lá de misteriosa e diminui de uma jamanta - ao sair de nossos bolsos sobrecarregados de impostos - para um mero triciclo de serviços mal prestados) seja não só refletido ao povo, ou aos professores, ou aos policiais, ou à saúde, ou às esburacadas estradas supertarifadas, mas que seja real e a todos, inclusive nos aumentos escandalosos e autoconcedidos de uns e outros.
Que a impunidade generaliza e confusa pare de ser um mero desejo de todos, uma perigosa enxaqueca que, feito a malária, cria delírios e faz com que os doentes, no desespero por qualquer nesga de decência em suas vidas, sonhem com absurdos tais, como a própria ditadura e as intolerâncias violentas de toda ordem. E me perdoem a redundância, eis que não há intolerância que não seja violenta, mesmos as silenciosas. E que os radicais e fanáticos, de cá e de lá, ou de acolás e aiatolás, sofram um espasmo de lucidez e abandonem suas máscaras do ridículo.
E embora a humanidade continue sendo apenas esta pobre humanidade e nada além, que um milagre aconteça. E um tsnuami invisível inunde as mentes com gentilezas, com um altruísmo viral e contagiante, com amores despudorados e despidos de formulismos. Que o planeta seja planeta em sua diversidade fantástica. Que o trânsito não seja palco exclusivo da tirania dos carros e dos motores e das marcas e dos capitais. Que as máquinas não substituam os homens até nas relações. Que a tecnologia são afaste ainda mais os corpos e os olhares. Que os gananciosos pensem, nalgum momentos, nas crianças que eles enfiam em cápsulas de tristezas e arremessam ao nada. Que os senhores da guerra e dos venenos troquem seu modo de vida, e então deixem de lado essas mortes todas, as que tornam belo o seu negócio. E que o bom e o verdadeiro parem de ser excessões aplaudidas com caretas de espanto. Que se tornem banais, as coisas boas. Que sejam costume.
Nada disso será verdade. Mas talvez seja, em cada vida que decidir que será. Então deixo à meia dúzia de leitores que me acompanha, neste rincão, o desejo de que tenham forças para querer bem. E fazer bem. Qualquer mínima diferença talvez não tenha o poder mudar o ritmo do oceano, mas fará da nossa praia um lugar muito melhor.
