Não há medida para a dor. E talvez até seja uma bênção essa nossa incapacidade de mensurar exatamente o quanto dói uma violência, uma injustiça, uma monstruosidade. O quanto isso nos abala e derruba. Há dores que parecem infinitas para uma vítima e os seus familiares. Para quem é apenas um ser humano normal e consegue se colocar no lugar do outro. Mas há também os absurdos – qual a carga de dor, por exemplo, que nasceu das crueldades da Segunda Guerra Mundial? Quantas almas sofreram? Quantas famílias atingidas? Foi uma das primeiras coisas que pensei, quando o caso do maior predador sexual conhecido da história do Rio Grande do Sul veio à tona.
Dezesseis anos ininterruptos de ataques contra crianças e adolescentes entre 8 e 13 anos. Mais de setecentas pastas de arquivos com vítimas, quase duas centenas delas já identificadas pelos policiais. O quanto de dor, medo, horror e desespero isso tudo causou? Quantas famílias atingidas em cheio, como se uma bomba explodisse em seu peito, ao descobrirem como as garras da desgraça violaram e violentaram seu bem mais precioso, os seus filhos? Não há como medir. Nem como imaginar o quanto ainda se sentirá de dor, até mesmo da parte de quem conviveu, de alguma forma, com esse monstro, e nem sabem se estão no rol gigantesco e assombroso das famílias destroçadas por ele.
A notícia trouxe, mais uma vez, o debate sobre o controle dos conteúdos que as redes sociais permitem, as interações que nossas crianças têm através destas redes e a necessidade de acompanharmos tudo de perto. Como? Por quê? Há como reverter esse quadro assustador? Ora, essa facilidade de se criar perfis falsos precisa ser avaliada com urgência pelos senhores que lucram com o inchaço destas redes. O predador de Taquara (cidade que, infelizmente, teve outra notícia extremamente triste por estes dias - o espancamento cruel de um bebê por parte de quem deveria protegê-lo) fingia ser uma menina nas redes e envolvia suas vítimas numa teia de onde elas não conseguiam mais sair. Tudo feito com planejamento, estudo e paciência. Capacidades intelectuais usadas para cometer o mal em uma de suas formas mais asquerosas. Mas tudo deixando rastros.
Os predadores de crianças e adolescentes são tipos sedutores. Quando não do próprio convívio da família, são respeitados socialmente e em suas comunidades. Têm a confiança das pessoas e usam esta confiança como arma para fazer ameaças. Infelizmente, este predador preso em janeiro não é o único e nem será o último a nos deixar com asco. Outros estão por aí, soltos, atacando ou rondando nossos entes queridos. Como se prevenir? Ainda acredito no diálogo. Que os filhos não tenham medo de contar nada, mas nada mesmo, aos seus pais. Que os filhos sejam fortalecidos na convicção de que ninguém pode aceitar ou se calar diante de ameaças. E que eles precisam acreditar, acima de tudo, naqueles que os amam de verdade, os que devem ser sua verdadeira proteção. E se houver pais que não estão cientes disto, da importância da presença e da confiança, ou não dão importância para o que acontece com seus pequenos, lamento dizer: vocês estão facilitando a proliferação de pragas predadoras desse tipo.
