Oscar Bessi

Prepotência letal

Acidente com prisões e feridos nesta madrugada, em Porto Alegre, é apenas mais um triste episódio desse descaso total pela vida humana, de desrespeito ao outro, de uma prepotência institucionalizada e, infelizmente, admirada e seguida por tantos.

Alguém pode ser mais dono do mundo do que o outro?
Alguém pode ser mais dono do mundo do que o outro?

Duas pessoas foram presas, nesta madrugada de terça-feira (26/08), por um "acidente” (e dá para chamar de acidente?), ocorrido na Avenida Nilo Peçanha. Há suspeita de prática de racha. Dois carros estavam parados no semáforo - fechado. De repente, outros dois veículos vieram do nada, no mesmo sentido, e, em alta velocidade, um deles colidiu com os dois que ali estavam.

Estes, estavam ali apenas seguindo as suas vidas, talvez voltando do trabalho, da faculdade ou com suas famílias, obedecendo à sinalização de trânsito local, às regras de trânsito feitas para que as pessoas possam se locomover com segurança, ao convívio harmônico e possível entre as pessoas.

Duas mulheres feridas. No rosto. Que não fizeram nada para provocar isto.

O carro que as feriu? Um importado de quase meio milhão de reais.

Aí relembramos o caso envolvendo um "influencer” (como esta palavra fica ruim em certos tipos!) e o acidente que ele, com seu veículo caríssimo, provocou em São Paulo. O desprezo com que tratou as vítimas da sua irrespondsabilidade, pois os vídeos das câmeras de segurança mostratram como ele, deliberada e intencionalmente, passou o sinal vermelho, sem se importar com as vidas que colocava em risco.

E lembramos também do empresário que, com seu carrão, perdeu a paciência com os homens que estavam trabalhando na limpeza urbana e, motivado apenas pelo seu descontrole e prepotência, assassinou um gari. Frio. Cruel. Acabou com a vida de um pai, de um filho, de um trabalhador comum. E foi malhar.

No cerne desses três casos, e de tantos outros que assistimos - como o juiz aposentado embriagado que, com uma mulher nua no colo enquanto dirigia, matou uma ciclista que ia para o seu trabalho -, vemos uma crise total de respeito. De consideração. De educação. De humanidade.

No pano de fundo de todos esses casos, pessoas que se acham acima dos outros. Uma prepotência letal, uma arrogância fratricida. Alguém que acha que a vida dos outros vale infinitamente menos do que seu prazer imediato e passageiro. Que a dor alheia não vale tanto quanto a sua risada. Esses tipos matam e não lamentam. Agridem e não dão a mínima. E o que mais apavora é que essa gente é idolatrada por muitos. Seguida por milhares. Imitada. Talvez, inclusive, e em diversos momentos, pelos nossos filhos. Há que se reverter essa inversão de valores humanos urgentemente.

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