Ele está preso. Odilon de Oliveira, 56 anos, não pode ir ao banheiro sem que policiais federais o acompanhem. Não pode comer o que quiser, nem onde desejar, pois há risco de que o evenenem. Não vê a família. Não pode passear, apreciar a natureza, pegar uma piscina, relaxar. Tempos atrás, ele dormia toda noite em um fino colchonete no chão frio da sala onde trabalhava (no presídio há colchões melhores, é fácil se constatar quando há motins e os presos queimam seus colchões, rapidamente repostos) e vivia - e ainda vive - cercado de policiais fortemente armados. Sim, Odilon vivia encarcerado no fórum que comandava, ele que já morou em quartel e num hotel - de onde saiu ao concluir que dava muita despesa à Polícia Federal e ao contribuinte e optou pelo próprio gabinete. Ele é refém de sua coragem, honestidade e determinação. Odilon, um brasileiro, era juiz federal em Ponta Porã, divisa do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Hoje, ele está em Campo Grande.Há mais de quinze anos sob escolta, devido às ameaças de morte, Odilon é responsável pela condenação, nos últimos doze meses, de 114 traficantes a penas que, somadas, beiram os mil anos. É o juiz mais ameaçado do Brasil, entre os quase duzentos que precisam ou pedem proteção devido a ameaças, número que cresce anualmente segundo o Conselho Nacional de Justiça. Sua vara foi a que mais condenou grandes criminosos no país. Ele já confiscou doze fazendas, mansões, apartamentos, casas, carros e aviões, tudo comprado pelo dinheiro da droga. Um prejuízo de milhões aos criminosos. Por isto, os tubarões do tráfico já oferecem trezentos mil dólares pela sua cabeça. Ele brinca com a situação de “estar valendo muito” e não desiste. Despacha sentenças com a força de mil armas. Defende o seu povo e o seu país com a renúncia de sua própria vida. Dos seus próprios sonhos e anseios mais humanos. Mas ele não entristece: comprou a briga, irá até o fim.
Não passa bem um país que inverte suas prisões. Que permite a livre circulação do bandidos dos mais variados rótulos e trancafia, sob o medo cotidiano, o cidadão comum e sua família em suas casas gradeadas e cercadas de dispositivos de segurança. Que confina juízes, promotores e policiais apenas por fazerem valer a lei. Por escolherem a via da honestidade ao defender seu povo contra os grandes criminosos, répteis humanos que sugam a vitalidade da nação e abastecem o circuito macabro de sanguessugas que nos impedem, ou manipulam, a liberdade verdadeira e plena. Odilon vive preso por mandar grandes bandidos para a cadeia e não desiste. Penso nele e duvido que chamasse de “colega” o protagonista do triste episódio carioca, maior vergonha nacional dos últimos tempos, o caso absurdo do juiz que prendeu a agente de trânsito ao dizer que ele não era Deus, então devia cumprir regras como qualquer outro do povo. Ilhas distantes. Somos assim, um arquipélago, onde honestidades isoladas e péssimos exemplos disputam o oceano de esperanças que precisamos ter.
