Oscar Bessi

Professores na Linha Vermelha: o Resgate

(Crônica publicada há meia década - 15/10/-10 - no Correio do Povo dominical, edição impressa. Nada mudou. E a Fênix ainda não apareceu por aqui. Também uma tirinha maravilhosa de Alexandre Beck, publicada nas redes sociais, com seu personagem Armandinho)

profes

A Fênix 2 foi a redenção. Ainda somos humanos, deu no noticiário. Atravessamos o planeta para salvar alguém. Temos coração. E isto não é um chip. O mundo fez uma pausa, emocionado, para assistir ao resgate dos mineiros chilenos. Ficou a impressão de que nem tudo está perdido. Mesmo com a saraivada de mortes e pilantragens ricocheteando nas notícias paralelas, temos saída. O ser humano ainda se ama. E se esforça em gestos solidários. Consegue buscar um companheiro soterrado e retirá-lo da escuridão sem ter que, obrigatoriamente, lucrar com isto. Viva a Fênix 2. Ela é melhor que o super-homem. Agora, temos outra missão para a cápsula salvadora. Outro resgate urgente. E não menos difícil ou emocionante. Precisamos buscar, num lugar terrível e quase esquecido, nossos professores.

Dia 15, lembramos nossos mestres. Algumas maçãs e poesias efêmeras em sala de aula. O brilho de um olhar ainda ingênuo e esperançoso de crianças rasgando a realidade. E só. A Rádio Guaíba, dentro do programa SegurançaRS, debateu a questão da segurança escolar. O contexto que hoje envolve o trabalho e a realidade vivida dentro de uma escola e no seu entorno. Discussão fundamental para tudo o que almejamos em termos de futuro. Já que certos condutores de nossas rédeas esqueceram que, um dia, estiveram em sala de aula. Se hoje falam, escrevem, estudam - mesmo que distorcendo o saber para endossar suas falcatruas -, devem seu aprendizado a professores. Afinal, quem ensinou a ler, fazer continha? Claro, sem esse desvio todo no resultado final.

Os professores, hoje, são heróis de um exército farrapo que resiste bravamente. Contra tudo e quase todos. Que insiste na revolução pacífica com a única arma que inimigo nenhum pode roubar. Muito menos derrotar. O conhecimento. Que medo dá isto, hein? Um coletivo de olhos abertos não cai em mentiras mal contadas. De traficante ou político corrupto. Povo inteligente não se manipula. Não permite golpes, nem compra suicídios. Tem virtude e jamais será escravo. Um perigo. Ainda mais para quem lucra com o caos.

Ilhado na linha vermelha do desequilíbrio, entre o fogo da violência que coopta crianças, a inconsciência de pais que jogam contra a educação – renunciando ao seu papel primeiro, em casa, ou simplesmente protegendo e compactuando com os erros do filho ao enfrentar a escola – e a desvalorização institucionalizada em termos de gerência pública, lá está o professor. Sozinho na sala de aula, ergue uma surrada, mas digna, bandeira de paz. Mostra caminhos possíveis, até para quem não quer ver. Desarmado. E perseverante. Morre pelo ideal, apanha em sua luta. Mas continua. Fênix 2, dê um pulo aqui. Resgate nossos Mestres, urgente. Eles também têm fome. Principalmente de respeito e reconhecimento.