Oscar Bessi

Provas de fogo

capaColuna da edição impressa de final de semana

 

Poucos sabem, mas a carreira dos oficiais da Brigada Militar, de nível superior, não admite promoções apenas pela intenção de promover. É preciso ser avaliado, qualificado e só então habilitado à ascensão. O capitão que deseja subir ao posto de major, por exemplo, passa por uma bateria de testes médicos, físicos e intelectuais, para aí frequentar um curso equivalente a um mestrado. Se aprovado, pode ser promovido. Para chegar ao posto máximo, de coronel, já é preciso passar por novo processo seletivo semelhante e frequentar um doutorado na segurança pública. Isto fora as inúmeras “pós” durante a carreira nas áreas de policiamento ambiental, trânsito, comunitário, bombeiro, ensino, operações especiais e etc. Ou seja, o sujeito que quer subir tem que estudar muito, mostrar que tem condições de encarar provas de fogo e superá-las.

Um grupo de capitães, homens e mulheres, está neste processo seletivo pelo sonho de ser major. Sem deixar os seus afazeres no front, já enfrentaram baterias de exames médicos e físicos. Até terça eu estava entre eles. “Veterano Bessi”, saudavam. É que sou de outra geração. Fui aspirante em 1994 e não há outro capitão da atualidade que tenha sido “aspira” (eu devia estar exposto no Museu da Brigada). Esses capitães, de diversas partes do estado, já são de carreira jurídica. Alguns eu nem conhecia. Mesmo assim me incentivavam, parabenizavam pelos textos no Correio do Povo, um me contou que seu sogro, de Erechim, encaminha minhas colunas pelas redes sociais. Era terça, cedo da manhã, e estávamos no Ginásio da BM para os testes físicos. A comissão avaliadora era presidida pelo Major Vitor Ruas, um fidalgo. Todos da comissão, aliás, traziam consigo essa aura leve, jovial e saudável que atletas e docentes de Educação Física têm. Estimulante.

Há lições gigantescas que vêm de pequenas derrotas na vida. Eu queria ter sido aprovado, mas sabia não ter me preparado o suficiente. Depois de um desempenho mediano em abdominais e apoios, alguns metros de corrida me eliminaram. Tá, eu tive o azar de curtir o final de semana com a garganta estourada e febre. E talvez alguns reflexos dos problemas de saúde que me incomodaram nos últimos dois anos tenham me afetado. Mas eu poderia estar melhor. E me emocionou um capitão, nem sei seu nome, mas será uma honra se um dia for meu comandante, reduzir seu ritmo de corrida, me puxar pelo cotovelo e gritar: “Vamos, veterano Bessi! Vem comigo! Vamos conseguir juntos!”. Não deu. Mais tarde, porém, ao vomitar de tanto esforço, eu me sentia feliz. Pela união, pelo caráter e força de vontade daqueles que comandarão a Brigada daqui a pouco, que estarão à testa das batalhas por esta sociedade que pede esperanças contra o crime e a violência. Orgulho de vocês. Da chama acesa. E na próxima seletiva, prometo: o veterano não vai decepcionar.