Oscar Bessi

Quando carinho e crueldade surpreendem

No Espírito Santo, uma mãe e suas duas crianças estavam no carro da família, manobrando para entrar em casa, quando foram assaltadas. Nada de novo em nosso país cheio de crimes e bandido. A mulher viu armas apontadas para a sua cabeça, gritou para pegar seus filhos, conseguiu retirá-los (ainda bem, em quantos casos eles levam as crianças, como na triste história do João Hélio?) e entregou o veículo. Mas um dos ladrões, mais tarde, ao ver a cadeirinha especial para criança com deficiência, se arrependeu. Decidiu devolver o carro para a mulher. E com um bilhete “O crime pede perdão. Na hora da tensão, não deu pra ver o problema da criança e o carro tá sendo devolvido. Tanque cheio!”. Uma espécie de Robin Hood pós-moderno? A família já fazia campanha para arrecadar nas redes sociais o dinheiro para comprar outra cadeirinha, pois estas, especialmente feita para crianças com paralisia motora, tem um custo de aproximadamente R$ 17 mil. O valor de um outro carro usado.

Mas aí a gente leu há dois dias, aqui no Correio do Povo, sobre o caso dos quatro tios que, acompanhados do companheiro da avó, abusavam de forma cruel e contumaz de uma criança de apenas 5 anos. E a violentaram por dois anos inteiros, até que agora, aos 7 anos, ela conseguiu contar pela interpretação equivocada de uma circunstância envolvendo sua mãe, que para poder trabalhar deixara a menina na casa dos familiares para que eles cuidassem da criança. Cuidassem! Uma barbárie tão nojenta que quaisquer palavras para definir o que esses bandidos monstruosos fizeram com essa pequena é insuficiente. E se a investigação comprovar a cumplicidade da avó, bem, aí então só se pode entender que esse pobre anjinho foi cair num lugar tão hediondo que nem o próprio inferno consegue ser. Quiçá, os tratamentos psicológicos e de saúde consigam dar algum futuro a essa pobre menina.

Nossos dias são fúteis. Rasos. E rápidos demais. Tudo soa banal e, do amor ao ódio, da união ao enfrentamento, do respeito ao desprezo, as coisas se dissolvem fácil demais. Nossas emoções são efêmeras e mormente vinculadas a imagens que propagandeiam caras e corpos perfeitos, vidas perfeitas, sentimentos expostos feito bonecos nas prateleiras de uma loja. Há uma crueldade possível em cada esquina e com a justificativa mais esdrúxula. Mas há essa teimosia de tantos em permanecermos humanos. Se um criminoso, disposto a matar para roubar (e não usaria arma se não estivesse disposto a matar), permite ter seu coração tocado pela necessidade especial de uma criança, sua vítima, a ponto de desfazer seu ato e, ainda, encher o tanque como compensação pelo transtorno, isto é um sinal. Sei lá. Mania de ter fé, apesar de tudo. Minha torcida, de fato, nem é pelo futuro deste bandido. Mas para que o seu gesto tenha marcado o início de uma mudança em sua vida. Que ele entenda que fazer o bem e andar na linha são prazerosos. E este pensamento contamine positivamente seus parceiros de crime. Já os estupradores da criança, desses não espero nada. Monstros não são humanos.