Ninguém seria capaz de imaginar tudo o que viveríamos naqueles dias, há exatamente um ano. O maio de 2024 ficará para sempre na memória de todos os gaúchos - e muito além de nós. O ímpeto implacável das águas, a fúria imbatível da natureza, o pavor incrédulo nas retinas. O caos, tão incontrolável quanto pavorosamente banal, numa hecatombe desgovernada de assombrosas surpresas. Notícias trágicas em série, impensáveis, parecendo sair de um filme de ficção sobre o apocalipse. Cenas de desespero e dor. O ruir repentino de tudo o que julgávamos inatingível até então. Construções e pontes desabando feito frágeis castelos de cartas. Rios mudando seus cursos e devorando cidades. Morros e florestas, vindo abaixo como se derretessem. Histórias e memórias e conquistas sendo apagados como se fossem nada e nunca. Dias de medo. Dias de mortes. Dias de horror.
Mas eis que, da tragédia e das lágrimas que inundam tudo sob ferozes águas barrentas, surgem almas. Braços. Barcos, abraços e corações. Surge a entrega de heróis anônimos, que brotam em profusão de um sentimento de solidariedade jamais visto. Seres humanos iluminados que largam suas vidas para se dedicar às ações de solidariedade e resgate. Os integrantes das forças de segurança pública de todo o estado, mesmo as centenas atingidas em cheio em suas casas e suas vidas pela tragédia, se lançam à missão de salvar vidas. Todas as vidas. E proteger patrimônios. Porque, infelizmente, algumas mentes putrefatas aproveitaram o momento de desespero para roubar e depredar, para cometer violências tão absurdas que uma legislação específica deveria punir, mas de forma exemplar e irrecorrível, por ser esta uma crueldade monstruosa: aproveitar-se e explorar a fragilidade e a dor dos seus semelhantes em meio ao caos.
Forças de segurança de outros estados vieram em peso ajudar os nossos. Civis, em grupos ou isoladamente, de todo o Brasil e até do exterior largaram tudo e vieram se engajar na missão de salvar vidas e proteger cidadanias. Cargas de doações incontáveis venceram estradas destruídas e chegaram aonde houvesse alguém precisando. A tragédia nos ensinava que a natureza jamais se submete ao homem e pode se rebelar quando bem entender. Mas nos ensinava também que nós, humanos, ainda temos um belíssimo lado bom. Que sabe ser solidário e resiliente. Que sabe ter extrema garra, coragem e bravura irmanadas a uma gigantesca e afetuosa dedicação ao próximo. Que sabe renunciar a tudo o que é seu apenas para que o outro possa aliviar a sua dor e sorrir. A tragédia nos arrancou pontes, levou casas e plantações, tirou vidas de entes queridos. Mas também fez florescer, no exemplo daqueles dias fatídicos, um jardim de heroísmo, amor e solidariedade jamais vistos.
