Estou prestes a completar nos próximos meses os meus 35 anos na ativa da Brigada Militar. E nunca tinha visto algo assim. Já choramos perdas irreparáveis de colegas de farda, no front. Não foram poucos. Mas não tenho lembrança de algo tão trágico, de tantos colegas mortos e feridos, de tantas vítimas, ainda mais por um único atirador como o que aconteceu esta semana em Novo Hamburgo. Eu tento me colocar no lugar destes dois jovens, os soldados Kirsch e Volz, quando receberam o chamado atendido pelo fone 190. Um idoso agredido pelo filho pedia ajuda. Quantos assim atendemos? E eles foram, dois rapazes da mais alta estirpe, dois grandes cidadãos, dois filhos que eram orgulho dos seus pais, dois maridos dedicados, um pai ainda só sorrisos pelo nascimento do seu filhinho há poucos dias. Foram lá para ajudar o que seria apenas mais uma vítima dessa falta de respeito que contamina nossa sociedade como uma chaga incontrolável. Não. Era muito pior. Foi o último pedido de socorro atendido em suas vidas.
Eu já questionei o motivo, o sentido de um cidadão comum ter tantas armas, armas de grosso calibre, armas longas, farta munição em casa, quando a sua profissão não é defender a sociedade. Para defesa de si mesmo e do seu patrimônio, pode ter menos, bem menos. Mas o atirador que ceifou a vida dos próprios familiares e de dois policiais militares, tinha. Tudo legalizado. Então se encontra depoimentos de quem conhecia o assassino dizendo que ele já tinha problemas psiquiátricos. Mas seu arsenal seguia legalizado e permitido. A hora não é de acusações, acusar é o jeito mais torpe de se falar sobre a dor que todos sentem neste momento. Acusar é o vício dos radicais, é fácil e não exige raciocínio. São muitas famílias em luto neste momento por algo que ninguém merecia passar. O que é preciso é, em vez de apontar culpados ou enrolar explicações para se eximir de culpas, é refletir e mudar regras. Rituais. Este caso é dolorido demais para passar em branco. Sim, algo falhou. E não pode falhar de novo. Não assim.
Mas quero é falar dos heróis que nos deixaram. Kirsch e Volz. Eis a nossa profissão, tão fácil de ser criticada pelos que não enfrentam o perigo e dão palpites histéricos em tudo, mas correm ao ouvir o primeiro estampido. Quando o caos se apresenta monstruoso, só ficam os policiais. Lembrei de uma véspera de Natal, há uns três anos, quando eu e um sargento fomos verificar o que era pra ser um caminhão estranho em área rural. Eram dois. Duas cargas roubadas. E dez indivíduos nos receberam sob uma chuva de balas. É para isto que nos fardamos. Para ajudar, proteger, orientar. E para oferecer a própria vida ao risco pelos outros. Enquanto oramos pelos policiais feridos e ainda internados, pelas demais vítimas do atirador, enquanto o luto, por estes dois heróis gaúchos, torna nossos dias mais pesados, olhamos ao redor e vemos que mesmo assim outros tantos seguem aqui, fardados, dispostos a encarar o perigo por qualquer um de nós, sem distinção. Que Deus receba estas duas almas iluminadas e proteja suas famílias. Que Deus proteja todos os nossos guerreiros e nossa sociedade gaúcha. É difícil, muito difícil. Cada vez que morre um policial no cumprimento do seu dever, parte da nossa civilidade tomba com ele.
