Oscar Bessi

Quem nada é peixe

Domingo, o calor convida ao mar. A praia lota com seus visitantes ocasionais, vendedores de picolés, de pipas, de bebidas, de bugigangas. Crianças correm num alarido feliz e despreocupado. Na esteira, a mulher espalha o creme protetor com cuidado sobre a pele. Sua atenção é total aos braços, às pernas, à barriga, às coxas, aos glúteos. Não quer deixar uma nesga de si descoberta para o banho de sol. O homem ao seu lado baixa o jornal num movimento discreto, aproveita os óculos escuros e aprecia a morena que, numa caminhada lenta e sensual, molha os pés na água. Compara seus cabelos aos de uma atriz de novelas. A mulher ao seu lado percebe e reclama. Ele contesta, diz que está lendo, eles discutem, elevam o tom. Ambos só lembram de tentar saber por onde anda o filho quando os dois salva-vidas passam correndo na direção das ondas. Eles passam bandeira vermelha cravada na areia, e que delimita o local seguro para banhos, e se jogam na água. O casal só agora dá importância àquilo. E lamenta não ter alertado o menino.
Todo verão, a imprudência de banhistas ocasiona uma série de salvamentos em águas salgadas e doces. A ação preventiva dos salva-vidas se torna essencial à preservação de vidas quando a falta de atenção, ou de cuidado, fala mais alto. É a coragem sem conhecimento, a ingestão de álcool ou de drogas, o descuido com crianças, o descaso aos altertas de perigo. Tudo seria bem mais fácil e tranquilo se o comportamento de cada banhista fosse permeado de uma boa dose prudência. De cautela nas águas. Afinal, quem nada é peixe, já dizia a minha avó. Nós somos seres terrestres e, por óbvio, nos afogamos. Basta facilitar. Basta ousar sem saber. Basta não conhecer.
O salva-vidas torna-se o policial da areia. Seus sinais, seus avisos, seus apitos não têm o objetivo de estragar a animação de quem se diverte. Apenas querem evitar tragédias. Não há alegria que compense a dor que vier depois dela, se o resultado é a falta de alguém que amamos muito. E pensar que tudo nasceu de um gesto banal, aparentemente inofensivo, porém fatal e irreversível, dói mais, porque nos criticaremos por saber que era desnecessário. Que alguém tinha dito que poderia dar problema. Que bom que há anjos atentos na nossa proteção. Mas eles também são humanos, é bom lembrar. E não esterão em todos os lugares, o tempo todo.