Recrutamento para o crime
Onde houverem seres humanos, haverá violência. É típico da nossa patética racionalidade. Países europeus, ditos de primeiro mundo, também têm seus crimes, seus assassinos, seus mercados negros de drogas, roubos e contrabandos. Aliás, se espiarmos a História, ou alguns recantos mais distantes, nós os encontraremos como protagonistas das maiores barbáries praticadas nos continentes que, corroborados por nosso próprio complexo de inferioridade, eles desprezam e rotulam como subdesenvolvidos. Tá, questão para profundo debate que não cabe em um mero parágrafo. Apenas para deixar claro: sociedade humana totalmente pacífica não existe, nem em sonho. Mas há esforços possíveis para que, no mínimo, tornemos o viver coletivo mais pleno de possibilidades. Nossa grande busca individual é ser feliz. Só que não há como, quando se vive sob a rotina tensa do medo e das privações que dele advém.
Desanimam os resultados que o movimento Todos Pela Educação divulgou. Dois milhões e meio de crianças e adolescentes fora da escola. Absurdo! Pois mais de um milhão e meio estão justo na perigosa faixa etária dos 15 aos 17 anos. A adolescência, quando o ser humano vive entre conflitos, buscas, inquietudes, necessidade de autoafirmação e reconhecimento no seu meio. Então vemos menores infratores, nessa idade, envolvidos em mortes no tráfico de drogas, assaltos violentos, estupros coletivos e outras bizarrices. Bradaremos pelo fim da impunidade contra adolescentes. Concordo, lei deve ser séria, deve ser cumprida à risca e ser para todos. E punição não pode fazer cafuné, que perde a credibilidade. Que s ressocialização, por aqui, é insignificante. Mas é só isso, mesmo? Endurecer com a gurizada? E a fábrica de bandidos, vai seguir sua produção sem ser perturbada? Firmeza legal, sim. Mas ao permitir tantos adolescentes fora da escola, os governos brasileiros oferecem é recrutamento voluntário, gratuito e farto aos enormes exércitos do crime que nos rodeiam.
Por isso estranho quando alguém se choca com cenas ao estilo das vistas no Rio de Janeiro. Alguém já viu como são as guerras? E alguém ainda duvida que nosso país está em guerra? Nossos confrontos entre policiais e bandidos não são mais o que se pode admitir como normal numa sociedade organizada e livre. São conflitos bélicos. Não dá para fingir que tudo está normal. Na internet, os flagrantes de violências pipocam por todos os lados e servem como ostentação. Aí se vê essa fila de recrutamento para o crime, generosamente engrossada pela omissão gestora brasileira. Já se teve tempo suficiente para mudar isto, não se fez porque não se quis. Vemos obras faraônicas e duvidosas, sob todos os sentidos, para Copa do Mundo cortarem, por exemplo, o programa nacional que levava livros às bibliotecas escolares. Quem perde nessa partida mal apitada são os nossos jovens. Nosso futuro. Nossa vida que se perde, todos os dias.

