Oscar Bessi

Roupa de tartaruga

Coluna de domingo

 

Anda difícil preservar a espécie. Predadores alucinados surgem do nada com seus fuzis, dinamites, pistolas, revólveres. Facas e estiletes. Ou seringas contaminadas. Em plena terra do desarmamento, eles se armam à vontade. E desarmam, desmontam a nossa vida. Outros são mais educados, sutis, ainda que não menos cruéis: vêm com seus belos discursos, cujo único problema é a desavença incompreensível entre as palavras e os atos de suas canetas. Ou maletas. Ou cuecas. Ou meias. Feia, a coisa. Se ficar, o bicho assalta. Se correr, o bicho multa.

A cifra negra - aqueles crimes que o estado não toma conhecimento, ou toma conhecimento e finge que não viu - é altíssima. Pode beirar os 98% de toda a violência existente ao nosso redor. Entre agressões, humilhações, abusos, assédios, constrangimentos, pequenos golpes, furtos, até roubos. São milhares, a todo instante, em todos os lugares. Medo, falta de conhecimento e pouca fé na coisa pública são os principais motivos a engordar este percentual assustador. Que, mesmo assim, deixa uma generosa fatia de horrores a ser exposta no nosso cotidiano. Moradores de bairros reclamam do que se torna insuportável. E é pelo dever de reclamar, que o andar da carruagem acelera na contramão do que se sonha. O importante é não cruzar os braços, nem desistir. Um dia haverá vontade verdadeira de mudar isto. Um dia.

E, enquanto os livros, a música, a arte, o conhecimento e o poder de sonhar são desafetos à fábrica social de bandidos, que acelera sua lucrativa produção de violências diversas a todo vapor, não se humaniza a raiz, e a árvore apodrece e seca sob seus medos. As flores somem. Os frutos têm veneno. E nós, reles mortais desesperados para não morrer, inventamos jeitos de nos proteger. Já que o desarmamento não desarmou - e imagine se ele nem existisse! -, vamos nos blindar. Carros blindados. Casas. Camas. Caras. Vamos dormir com pijama à prova de balas. Vamos pedir para que se invente um casco, uma couraça, algo que nos seja acoplado e possamos levar ao trabalho, à escola, à praia. Tornemo-nos tartarugas. Elas são sinônimo de sucesso na luta pela sobrevivência inteligente. Há duzentos milhões de anos no planeta, seguem na delas. Tartarugas não correm na freeway. Não fazem racha na Assis Brasil. Tartarugas sobreviveram aos dinossauros, aos romanos, ao planos do Sarney e passarão, faceiritas no más, pela Era dos PCCs e Petrolões da vida. Tartarugas não tiram a roupa para qualquer um. E poucos, fora a onça, abrem sua couraça à força. O mundo será das tartarugas. E se o segredo deste sucesso for o casco, tá, então nós estamos no caminho.