Daniel Abreu Mendes era um jovem idealista, apaixonado por servir ao próximo. Aos 40 anos, veio de Brasília para ser policial civil em terras gaúchas. E, mesmo sendo da última turma formada na PC, já havia conquistado muitos amigos na corporação por ser um colega cativante, alegre, interessado e sempre à disposição para encarar qualquer trabalho. Gostou tanto do RS que trouxe sua esposa e filha lá da capital federal e já se considerava um novo gaúcho. A Polícia Civil havia se tornado sua grande razão de ser. E, como todo policial, trazia consigo, instrínseco, esse desejo de servir ao próximo e transformar a sua comunidade num lugar melhor, como com o risco da própra vida. Daniel amava o seu ofício. Estava feliz.
Até, na manhã de hoje, dar de cara com a perversidade de um adolescente – mais um! – criado por esta gigante escola brasileira de formação de criminosos.
Esse adolescente, que assassinou a sangue frio o policial Daniel, já havia sido apreendido por policiais no ano passado com uma arma. Ou seja, esses policiais já haviam dado o aviso: tirem esse sujeito de circulação, ele é criminoso e quer matar. Adiantou? Não, né. Como tantas ações policiais que acontecem todos os dias, deu em nada. O benevolente e incompetente sistema brasileiro ignorou o esforço e o trabalho da polícia e liberou o guri malfeitor. Assim, hoje, uma esposa e uma filha órfã choram por essa incompetência e inércia inaceitável do nosso sistema. Esse assassino poderia muito bem estar fora de circulação. Mas não estava, seguia como tantos outros criminosos por aí, rindo e debochando da gente pelas ruas, prontos para matar em nome de suas opções criminosas.
A operação da Polícia Civil hoje, em Butiá, tinha como alvo o tráfico de drogas, principal motor dos homicídios mais recentes na região, segundo investigações e fontes policiais. Eram cerca de 60 policiais organizados para agir contra 09 locais desses crimes depois de muitoi trabalho investigativo minucioso. Daniel, segundo colegas, estava com uma equipe em uma das casas que eram alvo da ação, onde morava uma mulher com histórico no tráfico, inclusive tendo atuado na capital gaúcha. O corajoso Daniel foi o primeiro a entrar no quarto da casa. Anunciou a abordagem como manda o protocolo – e como insistem os preocupados teóricos que sempre acham oportuno questionar, nossa, será que o policial anunciou sua abordagem?
Pois o tal adolescente já havia o esperava com uma pistola 9mm com seletor de rajadas, dispositivo que transforma a pistola numa verdadeira metralhadora. Aumentando ainda mais a letalidade da arma. Outra dessas invenções geniais do ser humano para acabar com a vida dos seus semelhantes. E o adolescente não titubeou, matou friamente o policial Daniel.
O Rio Grande do Sul está de luto.
Quando morre um policial, morre parte da esperança de uma sociedade melhor. Morre um conjunto de valores que nos motivam a que sejamos mais coletivos, organizados, humanos e menos bárbaros.
Butiá, como outras cidades consideradas pequenas do interior, é disputada por traficantes. Pequena, mas com um comércio de drogas pujante Por que essa influência violenta do comércio de drogas em nossas cidades, até mesmo as menores? Por que essas mortes? Resposta fácil: porque ainda há muito gente dando de ombros para a violência que está financiando com sua “diversão”. Com suas teorias furadas distantes da realidade. E ainda há muito legislador mais preocupado com seus conchavos de manutenção de poder e troca de favores do que em melhorar, de verdade, essa legislação ridícula que torna nosso país um paraíso para bandidos de toda ordem.
Hoje choramos a perda de um grande brasileiro. Um brasiliense que se tornou gaúcho de honra. Um herói. Que a lembrança de Daniel seja sempre motivação para não desistirmos de lutar por uma sociedade melhor.
