Oscar Bessi

Só o Hamilton não gosta das mulheres?

O que é gostar, no dicionário? E se o sujeito diz gostar de mulheres, ou gostar das mulheres, há alguma diferença real nisto? Tratar mulheres como objeto, ou coisa, não pode ter chance de ser chamado de gostar. Ou os frequentadores, e os exploradores, de bordéis seriam os maiores defensores do sexo feminino. Criticado pelo seu gesto, no mínimo, grosseiro, ao jogar daquele jeito champagne contra a moça chinesa que estava ao seu lado como "podium girl", após o GP de Xangai, Lewis Hamilton ao que parece sequer pediu desculpas. Não se sente culpado. É normal. Já havia feito algo assim na Espanha. Liu Siying, a vítima do champanhaço eufórico do piloto rico e famosão, ao que parece ficou braba foi com a imprensa que supervalorizou o fato e disse que parem com isso, afinal não foi nada. E ela está tão certa quanto a lógica que tortura a maioria das vítimas da Lei Maria da Penha no Brasil: já pensou perder seu emprego, sua segurança, seu amparo material? Seria óbvio que, caso levasse adiante o fato, ou concordasse que o piloto foi um machista ridículo, ela estaria fora. Ainda mais num país que costuma ter muita oferta de mão-de-obra para qualquer função, sempre bem barata.

Na cena, não é apenas Hamilton que desrespeita a figura feminina ao reduzi-la a objeto de decoração e sensualidade no palco da vitória masculina. É quem organiza, quem patrocina, quem faz os eventos serem assim. Quem já foi aos salões de automóveis e motos? Já viram as roupas das moças que param feito estátuas eróticas ao lado dos carrões.


Pois foi justamente em Xangai que, em fevereiro deste ano, se proibiu o uso de modelos no Salão Internacional do Automóvel devido ao uso já descontrolado da mulher como objeto de apelação. "As empresas devem centrar-se na qualidade e na tecnologia dos seus produtos", anunciou a entidade organizadora do Salão de Xangai, o mais importante e antigo (1985) da China, país que é o maior mercado nacional de automóveis do mundo.


Teria, então, Hamilton agido em resposta a isto? Pode ser. Talvez causasse reações extremas se, aqui no Brasil, os fabricantes de cerveja fossem proibidos de usar os glúteos e os peitos femininos em comerciais só para incentivarem o consumo de seus produtos alcoólicos. "Tome um porre e meta a mão com umas dessas v..." é o mesmo que "compre um carrão e pegue uma dessas v...". E outras tantas bizarrices tão aceitas como normais e que transformam nossas mulheres em pedaços de carne a desfilar para quaisquer feras famintas abocanharem, quer elas queiram ou não, e com violência ou sem - isto nunca importa aos que vendem estas imagens.


Vamos pensar bem. Hamilton é apenas um boneco de entretenimento no circo. Muito mais gente arremessou champagne com violência no rosto daquela menina. E, como sempre, ela fica sem outra saída que não seja ajudar a segurar a garrafa.