Oscar Bessi

Só vou dizer o que não devo

"Há coisas que não devem ser ditas".

Quando criança, a gente relaciona a frase acima com algum castigo. E com medos. É que nossa censura racional começa já em tenra idade, "não diz isso, não fala aquilo, não conta, não abre o boca, não é tua hora". E relacionamos o "não dizer" apena com isto, um limite desacompanhado de sua boa explicação, apenas limite e ponto final.

Do palavrão a algumas verdades e novidades, muita coisa não se permite dizer, quando somos crianças.

Se minha mãe abria uma concessão e, no Supermercado Real da Tristeza comprava um chocolate Kri, ou Surpresa, ou Prestígio (o preferido dela), a gente não podia contar para o pai. Ele era radicalmente contra doces fora de hora. Isso acontecia uma vez por mês e olhe lá, era uma singela, porém marcante, festa a três. Mentirinha justificável.

Há mentira justificável?

Mentimos para agradar quem ou o que não gostamos. Mentimos para lucrar. Mentimos para fugir. Mentimos para ganhar pontos. Mentimos só por mentir. Se a mentira fosse banida da mente humana, o mundo entraria em colapso.

Depois de alguns anos, aprendi que mesmo falando a verdade, o pai ficava uma fera e vinha castigo, então comecei a dar nó nas pequenas versões dos meus próprios erros, por medo. Sorte que tinha a mãe, e ela sempre sabia a verdade, e suas reações nunca eram ruins, mesmo que ela ficasse braba. Com ela eu não tinha censura. Então gostei mais do costume de falar a verdade do que mentir. Adolescente, cortejado pelas piores besteiras da vida, eu sempre pensava nela e, por ela, deixava as besteiras pra lá.

Tá, algumas não deixei. Mas todo jovem é um natural transgressor de regras miúdas. Umas nunca contei. Não pela gravidade, por motivos meus.

Há coisas que não devem ser ditas.

Aí a gente assiste esse festival de delações premiadas. Criminosos parecem heróis entregando outros que, no fundo, a gente já sabia que eram. Os delatados negam, mentem, dão versões esfarrapadas e escandalosas. A mentira está liberada e corre na Freeway com os cabelos ao vento.

Um mente aqui, outro acolá, e a gene não sabe mais qual delas é menos mentira.

O problema é que a gente cria e cultiva essa cultura, que lá no início era uma simples tática infantil para escapar de castigos, ou manter a postura educada na casa dos outros, ou não ser indelicado. E cultivamos tanto, adubamos tanto que a transformamos em máscara na fase adulta, num escudo, como se fosse um meio de sobrevivência. Até de diplomacia. É quando nos tornamos pose. Não somos mais um ser humano natural, somos um "conceito" (publicitários adoram isso).

Na era das redes sociais, veio um fenômeno incrível. Ao mesmo tempo em que as poses são tão reforçadas que tornam as pessoas personagens de si mesmas, as máscaras caem com uma facilidade incrível. Basta espiar a enxurrada de intolerância de todas as vertentes. Quem jamais imaginávamos vira uma besta-fera.

Dou um exemplo. Eu, se fosse professor, um profissional responsável pela educação e formação cidadã de meus alunos, espiava a fundo as redes sociais de certos escritores antes de levá-los à sala de aula ou a palestras em escolas. Porque não adianta escrever uma historinha coisa mais fofa, com livro midiático apadrinhado por programas de governos (houve a era dos "companheiros" favorecidos por esses programas, agora não tem era nenhuma, já que não se compra mais livros e foram os próprios companheiros que secaram a fonte, precisavam construir estádios superfaturados para a Fifa) e ter postura deplorável, preconceituosa, arrogante e unilateral. Não é esse tipo de gente que ajuda o país a melhorar seu futuro. Esses, vestem máscaras para melhorar apenas seus bolsos as custas dos pequenos leitores desinformados. E vão para a sala de aula. Depois, crianças e adolescentes leem suas barbáries em rede social. Um crime hediondo, na minha avaliação!

Mas foi só um exemplo. De deformação.

E se de repente resolvêssemos jogar todas as máscaras no lixo e falássemos tudo o que precisávamos dizer? Sem ofender outros, mas sem mentir para agradar. Sem ser partidário ou fanático, sendo simplesmente justo e equilibrado. Sem puxar saco de personalidades duvidosas, valorizando é quem luta por um mundo melhor, mesmo no anonimato de sua rotina. Sem calcular frases para se dar bem, apenas dizendo o que o coração manda. Sem querer arrastar ninguém. Nem empurrar. Apenas mostrando seu olhar sobre o que, de fato, olhou e sentiu e se sentiu capaz de multiplicar.

E se rompêssemos a censura do consumismo, da sobrevivência, da dependência, das regras distantes de nossas necessidades mais simples? E se conseguíssemos ser ouvidos sem que nossa voz ofendesse apenas por ser discordante?

Toda vez que falei "o que não devia", perdi amizades. Não, na verdade não perdi nada, pois nunca foram amizades. Eram máscaras.

É. Dizer o que não devo? Por ora, não sei se seria possível.