Oscar Bessi

Saúde, Arte, Humanidade



 

 

 

 

 

Fotos: A roda da conversa, a roda que dá as mãos, a roda que se abraça, a arte dos pacientes de saúde mental sendo presenteada aos convidados.

 


Saúde, arte, humanidade. Todos estes elementos se unem e não necessariamente nesta ordem. Humanidade, arte, saúde. Foi uma convicção que pude reforçar ao atender o convite mais que especial das amigas Adriana Bandeira e Fabiani Moraes e, pela primeira vez, entrar meio que de intruso (pelo menos eu achava, no início) numa roda de conversa do Grupo de Humanização do Hospital Montenegro. Uma roda composta por profissionais de saúde, de psicologia, de assistência social, de carpintaria, de estudantes, de artistas e por aí vai. Uma roda múltipla, com formações acadêmicas e de vida, mas com vozes de iguais. Falando de igual para igual sobre o seu olhar mais humano, mais artístico, mais saudável. Cem por cento alma, sem qualquer distinção. Como deve ser um hospital 100% SUS. Como é nosso povo.


Sou um paciente, tenho cá meus problemas de saúde mental. Cheguei a ser afastado do trabalho e ainda convivo com limitações impostas. Ainda sob remédios, voltei a trabalhar, mas precisei redesenhar meu destino. Foi bom: pude me reencontrar. O mundo lá fora é acelerado demais, desumano demais, asfixiante demais. E, se não cuidarmos, ele nos suga. E nos transforma em mera peça de uma engrenagem que não sabemos exatamente como e para quê, ou para quem, funciona. Aceitamos. Mas não aceitar é que combina com a racionalidade. Com pensar e sentir. Eu decidi, após rodopiar entre dias e noites sem fim num turbilhão de insanidade e dor, que não preciso aceitar rótulos ou exigências que não são minhas. Tenho algo mais a fazer, algo que, quando muito novo, eu sabia e anotei nuns papéis em formas de poema. Perdi todos na estrada sem me dar conta. Agora, eu os reencontro. E é bom.


Ouvi, atento, relatos entusiasmados e emocionados. Dos profissionais de saúde, a constatação de que conviver com os que sofrem com problemas, naturais ou adquiridos, é uma lição gigantesca de vida. A agente de saúde que descobriu, em oito anos na periferia, que seu grave problema era menos grave que o de tantos, e dali tirou forças para se ajudar e ajudar ainda mais aos outros. O moço que faz tudo, pinta, conserta, constrói, instala, ajusta - e também é arte! - e narra como os pacientes querem ajudá-lo, a vontade imensa que todos têm de ser úteis. De fazer algo. De serem valorizados. As estudantes da área de enfermagem contaram do medo anterior, do preconceito, da vontade agora de nunca mais largar seus pacientes. Olhar nos olhos, entender, se colocar no lugar do outro. Permitir-se o carinho, o apego. Tão bom, tão necessário. E tão urgente, né?