Oscar Bessi

Sem queda de braço

Coluna dominical da edição impressa - 26/4/15

 

A grande frase da semana não foi dita por algum astro pop internacional, nem por algum filósofo francês, cientista americano ou qualquer outro desses especialistas de intervalo - e como há desses tipos em certos meios de comunicação, que brotam do nada depois dos comerciais para falar sobre o que já sabemos, na pinta de quem entende de tudo, e dá a última palavra, mas ela nunca diz coisa alguma. A grande frase da semana foi dita pelo Major da Brigada Militar Dagoberto Albuquerque da Costa: “não haverá queda de braço entre a Segurança Pública e a criminalidade”. Ele se referia a mais um episódio dessa triste guerra cotidiana de capitais como Porto Alegre, o episódio no Beco dos Cafunchos.

Primeiro que o enfrentamento ao tráfico de drogas não pode ser feito apenas pelas forças policiais. Deixar a situação chegar num estágio de resolução necessária à base de força policial quer dizer que tudo o mais falhou, fugiu ou se omitiu. O enfrentamento ao tráfico precisa, fundamentalmente, ser mais competente do que eles no mercado que os alimenta. Minar o fomento dessa violência toda. Ganhar, principalmente, os jovens. É isto que o poder público, com investimentos pesados em educação, cultura, esporte, saúde, dignidade, infra-estrutura e etc., precisa fazer antes de tudo. Não abandonar comunidades à própria sorte e deixá-las submissas ao jugo de traficantes, que, assim como o uso de drogas, só conseguem aliciar novos soldados graças aos seus argumentos de perspectiva, auto-estima, respeito e lugar ao sol. O que motiva o ingresso nestes bandos? A vontade de morrer? Não. A falta de esperança e exemplo de alguma dignidade noutro caminho.

Se o poder público aceitar a queda de braço com traficantes, estará assumindo sua incompetência e se nivelando a eles. Estará os promovendo ao absurdo da igualdade e se dará por satisfeito em mandar suas tropas para estes locais, nada além. A paz não usa guerras para se estabelecer, isto é uma mentira. Guerras só geram violências que se multiplicam. Paz só nasce  na não-violência e na fraternidade. Segurança pública é um conjunto de atos, é ser e estar, é poder permanecer, ir, vir e voltar a qualquer hora em qualquer lugar. Uma queda de braço seria só a guerra, não a busca da paz. E é a paz o que o Major Albuquerque e a Brigada Militar querem, seja no Beco dos Cafunchos ou onde for. É a paz que queremos como premissa dos poderes públicos. E enfrentamento forte, intolerante, ao tráfico de drogas, sempre. Mas repito: deixar sempre para a polícia resolver à força o resultado de todas as omissões para este enfrentamento, não é um gesto de paz. É omissão. Que incentiva uma guerra entre o seu próprio povo.